A forte relação da economia capixaba com o mercado externo — em especial por meio da exportação de commodities como minério de ferro aglomerado, aço, celulose e café — submete a sua dinâmica a influências de duas variáveis que lhe fogem de quaisquer controles: os preços e o câmbio.
Enquanto do lado dos preços tende a prevalecer a lógica do tipo “flex price” — preços externos flexíveis —, com maior peso das respectivas demandas, portanto, fora de ingerências internas, do lado do câmbio são sobretudo as incertezas e instabilidades geradas internamente a influenciar.
Foi o efeito câmbio, talvez mais do que outros, por exemplo, que fez com que o município de Vitória reassumisse a posição de liderança no Estado no quesito PIB – Produto Interno Bruto, no ano de 2020, deslocando o município de Serra, na liderança nos últimos anos, para o segundo posto. Se bem que por uma diferença ínfima: 25,5 bilhões para Vitória, contra 25,2 bilhões para Serra.
Essa passagem se deu por conta do desempenho do setor industrial, que no caso específico de Vitória, quase que exclusivamente, diz respeito às atividades desenvolvidas pela Vale, na Ponta de Tubarão. O PIB industrial passou de 1,6 bilhão, o equivalente a 5,7% do PIB total, em 2019, para 5,2 bilhões, 20% do total, em 2020. O efeito câmbio nesse salto foi de cerca de 35%. No mesmo período o preço do minério de ferro aglomerado praticamente ficou estável.
Chamo a atenção para o câmbio, pois historicamente este sempre esteve presente enquanto variável a influenciar o nível geral da atividade econômica. E, nesse aspecto, pelo cenário que se projeta no momento para o país, soa razoável admitirmos que o câmbio voltará a ter protagonismo na determinação do nível de atividade econômica do Espírito Santo.
É até possível imaginarmos um cenário para a economia capixaba admitindo-se a hipótese de uma certa estabilidade nos preços das commodities associada a um nível mais elevado do câmbio. Que é o que as expectativas estão a indicar. Uma combinação que poderá ajudar positivamente no desempenho do PIB estadual. Não se descartando, assim, a possibilidade de podermos contar com cenário local melhor do que se projeta, no momento, para a economia do pais.
Mesmo assim, praticamente tudo vai depender de como o novo governo se posicionará objetivamente diante dos desafios que estão postos, dentre os quais o que considero de maior relevância que é o desafio de se alcançar um estado minimamente aceitável de estabilidade sistêmica geral. E o câmbio é fator importante a ser considerado.