Imaginarmos ganhos com guerras não nos parece soar bem. Afinal, guerras, além de matar pessoas, muitas das quais indefesas e desprotegidas, têm um enorme poder destrutivo de natureza física, sobretudo em infraestruturas. Porém, esse lado destrutivo físico, quando não escalável em níveis mais elevados de abrangência territorial como guerras mundiais, se circunscreve a territórios específicos.
Como é o caso da Ucrânia, hoje. No entanto, mesmo que localizados, supondo-se um mundo globalizado, de ponto de vista da geopolítica e da geoeconomia os impactos tendem a acontecer de forma assimétrica, difusa, porém, abrangente. E, nesse campo, ganhos e perdas podem fazer sentido.
O conflito na Ucrânia, provocado por ato insano da Rússia, embora limitado fisicamente, mexe com a estrutura de poder em escala global e da mesma forma com a economia globalizada. Isso por envolver grandes players no jogo de poder global, e com grande poder de impacto nas relações econômicas. Como consequência, por exemplo, já podemos observar rupturas no processo de globalização que avançava.
Faz sentido usar a expressão processo de “desglobalização”, na medida em que grandes cadeias produtivas expõem fissuras em suas texturas, e países e grandes grupos econômicos começam a rever seus posicionamentos em relação aos seus respectivos graus de abertura externa. A tendência é de maior fechamento econômico, como estratégia de proteção, seguindo inclusive a crescente onda nacionalista.
Nesse novo rearranjo geopolítico e econômico em construção, sob o ângulo econômico, o Brasil até que está encontrando algumas brechas de oportunidades. Bases de grandes cadeias globais de produção aqui consolidadas estão encontrando espaços, como no caso do minério de ferro e do agronegócio – grãos e proteína animal. Movimento que explica em grande medida, direta e indiretamente, o acentuado recuo do dólar. Um elemento importante na contenção dos preços gerais.
Além de ajudar na contenção da inflação, o dólar menor faz baixar a relação entre a dívida pública bruta e o PIB. Ou seja, reduz a exposição do país ao risco e atrai investidores externos. A cada 1% de queda do dólar a referida relação é reduzida em 0,11 pontos percentuais. Mas, paradoxalmente, o ganho maior para a relação vem da própria inflação, que prejudica os mais pobres, mas melhora o PIB nominal e a arrecadação. Um verdadeiro “fogo amigo”.
Teremos assim uma pequena lufada de vento a favor da economia em 2022. Todavia, não haverá tempo e nem condições para provocar uma retomada de crescimento mais sustentável com consequente redução mais veloz do desemprego e das condições gerais de vida das pessoas. Preços em alta das commodities, que têm o seu lado bom, pois geram ganhos, também impõem perdas ao dinheiro que entra no bolso do trabalhador com a inflação que provoca.