O Espírito Santo desenvolveu a sua estrutura industrial bem tardiamente. Basta observarmos o quanto representava esse setor no PIB, ou seja, no total de riqueza produzida, no ano de 1960: apenas cerca de 5,5%. Em contrapartida o setor agrícola, ou agropecuária, no sentido mais correto, respondia por aproximadamente 50%, tendo o café como responsável por 80%. Resumindo, o Espírito Santo se apresentava como um estado essencialmente agrícola, e rural do ponto de vista da sua população, com 75% vivendo no campo.
A passagem da condição hegemônica da agricultura para a indústria aconteceu num curto espaço de tempo. Ouso dizer que talvez seja o mais rápido processo de industrialização dentre os demais estados. Já no ano de 1970, o PIB industrial passa a participar em 17% do PIB total, enquanto a agricultura despenca para apenas 23%.
Essa inversão se dá de um lado pela erradicação de cafezais, que fez cair a produção drasticamente, e de outro, a indústria ganha em escala e crescimento com a implantação do porto de Tubarão e as primeiras indústrias de pelotização. Tubarão pode ser interpretado como o fator decisivo da inflexão. O Espírito Santo abre suas portas e janelas para o Brasil e para o mundo.
Hoje temos uma indústria mais diversificada e de certa forma consolidada, porém ainda concentrada em atividades de exportação de commodities, e que responde por cerca de 27% do PIB, segundo cálculos do IBGE para o ano de 2020. No entanto, observando a agricultura, esta teve a sua participação reduzida para 4,5% para o mesmo ano. Uma queda muito forte se tomarmos como base 1970.
Esses números isolados dos seus contextos podem nos levar à conclusão de que nossa agricultura foi ou vai muito mal. E não é bem assim. Basta olharmos par o PIB da agropecuária brasileira, cuja representação está entre 5% e 6%, e que também mostrou quedas acentuadas nos últimos 50 anos.
E isso levando-se em conta o extraordinário desempenho nos últimos anos. É importante ressaltar que se trata de um fenômeno mundial e que vem atrelado a um crescimento mais acelerado da indústria e dos serviços e consequente urbanização.
Para melhor entendimento da questão vale recorrermos à contabilidade social, que é a contabilidade que calcula o PIB. Assim, o PIB da agropecuária leva em conta apenas o que é agregado de riqueza nova dentro das propriedades, ou seja, dentro das porteiras. Já o que é agregado de valor fora da porteira é contabilizado como PIB da indústria ou serviços. Agora, se somarmos tudo o que se conecta e que se gera fluxo econômico – valor monetário – nas relações para a frente, com a agroindústria, por exemplo, e para trás, com compras diversas, chegamos a um conceito mais amplo, que é o do agronegócio. Esse conjunto de atividades representa aproximadamente 25% do total do PIB do país. No Espírito Santo também deve chegar a esse patamar.
Mas, mesmo no conceito mais restrito, o PIB da agropecuária capixaba apresentou um desempenho surpreendente neste século. Entre 2002 e 2020 cresceu em termos reais, ou seja, retirando-se o efeito inflacionário, 90%. Quase o dobro da evolução do PIB da agropecuária nacional, cujo crescimento foi de cerca de 50%.
Alguma coisa teria acontecido para termos esse bom desempenho. E nesse aspecto, não tenho dúvidas em apontar o planejamento como aquele fator diferenciador decisivo. Afinal, foi com o primeiro Pedeag – Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura capixaba, em 2003, que se iniciou o processo de inversão da curva descendente do setor, e que foi seguido por outros, estando hoje em plena elaboração a versão 4, o Pedeag 4. Hoje, mais com olhares para o futuro do que para o passado.