Quem disse a frase do título foi o presidente do Banco Central, nesta semana. Não se trata, portanto, de qualquer pessoa. Além de revelar-se surpreso com a taxa de 1,62% do IPCA do mês de março. Aliás, a maior taxa de inflação mensal desde 2003. Chegando-se assim ao acumulado anual que já supera 11%. Ora, se foi surpresa para ele, para quem lida no dia a dia da sobrevivência, na ponta do consumo, e contando com parcos recursos, soa desalentador.
O que mais deve preocupar nem é o fato de a inflação estar muito alta, mas sim de que persiste na sua trajetória de alta. E como se trata de uma fala de presidente de um Banco Central, hoje independente, fica clara a mensagem de que vem mais aperto monetário pela frente. Ou seja, se o mercado já se contentava em fixar o teto de juros na casa dos 12,5%, agora, já há quem aposte que brevemente chegará a 14%.
Mas, nesse caso, interessa saber o que isso poderá significar para a economia como um todo. Não precisa ser expert para concluir que aperto monetário funciona como fator desmotivador de investimentos produtivos e motivador de investimentos rentistas, ou seja, no mercado financeiro. Para a economia real representa um “quebra-mola” mais elevado a funcionar como redutor da velocidade da sua retomada. Um freio mais pressionado.
No meu entender, no entanto, o espanto do presidente do Banco Central nem se vincula ao número em si, que de fato assusta, que reflete a inflação tópica de março, mas sim na constatação de que juros altos já não surtem os efeitos projetados e desejados numa política monetária restritiva. E a explicação desse fenômeno é relativamente simples, porém de solução complexa, e está relacionada ao fato de estarmos lidando com uma inflação predominantemente de custos, ou seja, que vem do lado da oferta e não de demanda. E, nesses casos, os juros tendem a perder potência enquanto antídoto no combate à inflação.
Há ainda uma outra preocupação que não podemos abandonar, que está vinculada ao perigo do retorno do mecanismo da força inercial atuando no processo inflacionário. Vimos isso nas décadas de 70, 80 e nos primeiros anos da década de 90.
O Plano Real, implantado em 1994, representou a batalha final que provocou a ruptura da corrente inercial inflacionária no Brasil. Hoje já podemos perceber mecanismos de indexação de preços em operação já disseminados na economia. Se a “moda” pega, poderemos ter mais pressão pela frente, principalmente pelo fato de estarmos em um ano eleitoral.