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Crônica

Um avião chamado desejo

Como uma estrutura potente e muito sofisticada, desejar é investir combustível numa máquina que inventa o ímpeto de se sustentar. Porque o desejo se banca

Publicado em 13 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 jun 2021 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher livre
Não se engane, o desejo é uma força em si, uma potência que gasta toda energia para se manter viva. Crédito: Freepik
Mais pesado que o ar, o avião chamado desejo voa, arrasta, transporta...
Como uma estrutura potente e muito sofisticada, desejar é investir combustível numa máquina que inventa o ímpeto de se sustentar. Porque o desejo se banca!
Ele é capaz de criar, uma atrás da outra, razões para permanecer vivo.
– É um perigo.
Diz que o desejo cega, arranca da gente o Deus da intuição e encerra o contrato com a alma. Estanca o mundo sensível.
Não se engane, o desejo é uma força em si, uma potência que gasta toda energia para se manter viva.
Aliás, o desejo é tão preocupado com a preservação da sua força, que muitas vezes se esquece de aproveitar a realização da própria demanda... De modo que enquanto cegueira, chama, febre, a energia do desejo bem pode ser destrutiva.
Piloto jatos certas horas... E assusto os outros com o barulho que faço.
Assumo o comando, invento razões incríveis para levar adiante o que sinto e boto força, consumo combustível, seduzo a tripulação, encanto, conquisto... Nota: aprendi com meu ancestral masculino direto, a ser uma conquistadora discreta. Encaro como uma espécie de dom a manutenção da segurança para conquistar, combinada à perseverança para aceitar o que seja. (Ser equânime é coisa de artista). Mas, amadora que sou, vira e mexe, vacilo: reviro mundos – faço acontecer até o que não tem porquê.
Perco o dom, ofereço perigo a mim mesma, corro risco.
Confundo sorte com aquisição daquilo que desejo.
Quando na verdade, felicidade nem sempre tem a ver com isso.
Ora, todas as bênção estão no espaço "entre", no caminho do meio, no encontro da semente com o solo e as águas capazes de a fazerem despertar.
Portanto, felicidade não é a semente do desejo em si, mas a semente junto às bênçãos que propiciem seu devir.
Mas aonde mora o desejo? Aonde ele nasce?
Decerto perto do peito acelerado, de junto do medo, da boca seca, na armadilha da fantasia, na cobiça, e em todas as ferramentas disponíveis na máquina humana para produção do auto-engano.
Porque quanto mais a gente pensa que entende o que seja a "lei da atração", mais se perde. Perceba, a energia vital não se submete aos nossos mundanos desejos... Ela, aliás, talvez gargalhe disso. Porque é fato, uma vez obcecados com o que quer seja, estamos oficialmente perdidos.
O reencontro, ou o reequilibro, vai depender sempre do corpo e sua astúcia simples – "o corpo sabe tudo", no fundo, sabemos disso. Ainda assim, muitas vezes deixamos de ouvi-lo e o castigamos ordenando: "adiante"!
(Nota: é aí que aparecem enfermidades, e outras mazelas que ministram ensinamentos profundos).
Finalmente, entrar em comunhão com o corpo é honrar o caminho do sentir, é resgatar o dom. É dissolver o ego, abrir mão do que desejamos ser, para honrar aquilo que somos, enfim. É um voo de asa delta – sem rota específica, sem hora de chegada, sem gasolina... É o peso do corpo, um par de asas bem construídas e o sabor do vento, ou da brisa...

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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