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Crônica

Troco capote de couro por chapéu de palha

Este veranico de primavera anda com uma carinha de air fryer

Publicado em 08 de Outubro de 2023 às 02:30

Públicado em 

08 out 2023 às 02:30
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Ilustração de Amarildo para a coluna de Marcos Alencar
A enceradeira elétrica, aquela lerda, chegou à cavalo Crédito: Amarildo
Antes das nossas casas serem invadidas por aparelhos de ar condicionado, a temperatura ambiente, de então, tinha mais ou menos o tamanho do calor de hoje em dia. A diferença é que, nos tempos em que os homens não saiam às ruas vestindo calças sem vinco, a gente tinha muito mais do que reclamar.
A temperatura era coadjuvante no ringue dos grandes incômodos da vida. O maldito sapato de couro, a velha fábrica de calos, é um bom exemplo. O couro mal curado dos sapatos atacava simultaneamente o calcanhar e os dedos do pé. E doía, doía pra chuchu. Já a turminha da Cartilha do Bitu reclamava mesmo era da tortura animal a que era submetida quando as amígdalas inflamavam. Se pudesse, a criançada faria um B.O.
Como numa guerra, armada com um lápis e algodão amarrado na ponta, uma impiedosa mão mergulhava aquela tocha fria no vidrinho de Colubiazol e, encharcada, arrastava ela com força pelas inflamadas amígdalas febris. Sem dó e nem piedade.
Assim torturados, dos pés à cabeça, que pobres irmãos do passado se importariam com o calor?
Mas as cenas de horror não ficavam só por aí. Eis que chegava mais um sábado, pra desespero de empregadas e filhos adolescentes: dia de emporcalhar as mãos e os joelhos de cera vermelha (a cor da moda da média classe média) se arrastando de quatro pela casa afora. Depois de lambrecar o chão era chegada a hora de passar, até a exaustão, o escovão e assim garantir o brilho por mais uma semana inteira. A enceradeira elétrica, aquela lerda, chegou à cavalo.
E assim, manchados de vermelho e vermelhos de raiva, a gente ia lá se incomodar com aquela quenturinha? Mas – é bom que se diga - o calor maior não vinha do sol. Nem da raiva de encerar a casa. O calorão, tipo exportação, vinha mesmo era das chamas e brasas do fogão a lenha. A cozinha ardia junto com ele. Aquele perfeito spoiler do que rola nas quebradas do inferno.
Temos também que considerar outras fontes insuportáveis de calor que, volta e meia, nos aprontam uma tocaia. Imagine a cena: você curtindo um pit stop relaxante em uma banca de jornais. Aquele manjado conhecido chega, alegre e fagueiro, e de imediato “aluga” o seu ouvido. Até aí a temperatura ambiente permanece estável. Então, ele engrena a segunda marcha. E depois a terceira e a quarta. Pisando fundo ele começa a contar uma estorinha safada e, a cada passagem mais picante, ele lhe dá um tapa no braço. A guisa de ponto de exclamação. E mais um tapinha, mais outro... Parece não ter fim aquele karatê kid. Dói no braço e esquenta as ideias.
Já o mormaço não estapeia a gente. Só causa irritação. Como se fosse um calor mental. É a especialidade do amigo (mais ou menos) que a cada três palavras de sua fala desinteressante e interminável, repete , arregalando os olhos: “ hein! hein! hein!” Uma punição que está a merecer um parágrafo no Código Penal Brasileiro.
Tudo bem que este veranico de primavera anda com uma carinha de air fryer. Mas tenham a certeza de que quando reclamamos da temperatura alta por aqui, os moradores de Cachoeiro e Colatina morrem de rir da gente. Claro, eles são PHD em calor. Última forma: desisti de trocar o meu capote. Lembrei que o vento sul adora chegar chegando.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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