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R$ 5 mil

A isenção do IR e o preço oculto da reforma da renda

O primeiro ponto a ser observado é que essa medida não deveria ser vista como um benefício concedido pelo governo, mas sim como a correção de uma injustiça fiscal que se perpetua há décadas

Públicado em 

09 abr 2025 às 03:00
Marcelo Mendonça

Colunista

Marcelo Mendonça

Com colaboração de Bernardo Mucelini, advogado do Mendonça e Machado Advogados
A recente proposta do governo de isentar do Imposto de Renda os contribuintes que recebem até R$ 5 mil mensais é, sem dúvida, uma medida bem-vinda. Trata-se de um alívio necessário para milhões de brasileiros que há anos sofrem com uma tabela defasada e um custo de vida crescente. No entanto, a forma como essa reforma da renda foi estruturada levanta questionamentos fundamentais sobre a coerência e a sustentabilidade do sistema tributário nacional.
O primeiro ponto a ser observado é que essa medida não deveria ser vista como um benefício concedido pelo governo, mas sim como a correção de uma injustiça fiscal que se perpetua há décadas. Se a tabela do Imposto de Renda fosse atualizada anualmente conforme a inflação, a faixa de isenção já estaria em patamares semelhantes há muito tempo.
O que se apresenta agora como um gesto de alívio é, na verdade, a devolução tardia de um direito que foi gradualmente erodido pela omissão do próprio Estado. Contudo, vale ressaltar que não houve uma atualização integral da tabela do IR, mas apenas a criação de uma faixa de isenção para aqueles que recebem até R$ 5 mil mensais, acompanhada de um desconto parcial para rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7 mil. Dessa forma, para quem ganha acima desse patamar, a tributação permanece inalterada, sem qualquer ajuste que compense a inflação acumulada ao longo dos anos.
Além disso, a estrutura da proposta evidencia uma falha conceitual: a compensação da perda de arrecadação se dá por meio da criação de um novo imposto mínimo para aqueles que recebem acima de R$ 50 mil mensais, incluindo rendimentos sobre dividendos. Esse mecanismo ignora por completo a necessidade de um ajuste estrutural na carga tributária, e reforça uma lógica arrecadatória que penaliza seletivamente segmentos produtivos da economia. A classe média e produtiva, que já arca com uma das mais altas cargas tributárias do mundo, continua sem qualquer alívio.
Nessa perspectiva, a ausência de uma revisão integral da tabela do IR cria uma armadilha tributária no médio e longo prazo. Com a inflação corroendo o valor real dos salários, o alívio momentâneo da isenção poderá rapidamente se converter em um novo peso fiscal, à medida que mais contribuintes forem sendo empurrados para faixas de tributação mais elevadas. A proposta, portanto, não soluciona o problema – apenas o adia.
Uma verdadeira reforma da renda deveria partir do princípio da justiça tributária, que implica não apenas aliviar a carga sobre os que menos ganham, mas também assegurar que o sistema como um todo seja transparente, previsível e equitativo. Isso significaria, entre outras medidas, a atualização automática da tabela do IR de acordo com a inflação, a simplificação do sistema de tributação sobre o trabalho e a redução do impacto sobre a classe média, que hoje sustenta uma parcela desproporcional da arrecadação.
Aplicativo da Receita Federal para declaração do Imposto de Renda
Aplicativo da Receita Federal para declaração do Imposto de Renda Crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil
No cenário atual, o governo abre mão de R$ 26 bilhões em arrecadação com a nova isenção, mas busca recuperar esse montante criando uma nova cobrança. Essa lógica contradiz o discurso oficial de justiça fiscal e eficiência econômica. Afinal, se o país arrecadou mais de R$ 3 trilhões no último ano, por que não se buscou compensar essa perda com cortes de gastos ineficientes e redução do desperdício no setor público?
A isenção para aqueles que ganham até R$ 5 mil mensais é, sem dúvida, um avanço, mas sua implementação expõe a falta de um planejamento tributário sólido por parte do atual governo. Sem uma reforma da renda verdadeira, que melhor contemple a classe média e estabeleça critérios racionais para a tributação progressiva, corremos o risco de repetir o ciclo vicioso: alívios momentâneos seguidos de novos aumentos de carga tributária.

Marcelo Mendonça

É advogado e busca descomplicar o Direito dos Negócios, abordando de forma direta e prática as várias faces jurídicas e estratégias voltadas às estruturações negociais

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