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Esportes e Negócios

Lei da SAF: a revolução no futebol

Na prática, a SAF é um tipo específico de empresa: a legislação estimula que clubes de futebol migrem do que são atualmente, uma associação civil sem fins lucrativos, para um modelo de atuação empresarial

Publicado em 19 de Março de 2023 às 00:30

Públicado em 

19 mar 2023 às 00:30
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

O futebol, uma das grandes paixões nacionais, está passando por um importante avanço na estrutura de suas operações comerciais. Alvo de piadas e polêmicas intermináveis no trabalho ou na mesa de bar, um dos principais símbolos do Brasil, o esporte nacional caminha para se transformar em um big business.
Como ocorre em tantas outras frentes, ainda estamos atrasados nessa corrida, pois a revolução já aconteceu na Europa há algumas décadas e continua avançando, chegando aos mercados dos Estados Unidos e Ásia. E agora começa a gerar impacto no Brasil.
A grande mudança está ocorrendo devido à aprovação da chamada Lei da SAF, a Sociedade Anônima do Futebol, modelo criado pelo Congresso Nacional em 6 de agosto de 2021, por meio da Lei 14.193/2021.
Na prática, a SAF é um tipo específico de empresa: a legislação estimula que clubes de futebol migrem do que são atualmente, uma associação civil sem fins lucrativos, para um modelo de atuação empresarial.
Os clubes tendem a virar empresas, com normas próprias de governança, controle e meios de financiamento específicos para a atividade do futebol. No Brasil, por enquanto, os exemplos de maior repercussão são Botafogo, Cruzeiro, Bahia e Vasco (meu time, por sinal), que foram adquiridos por John Textor, Ronaldo, Manchester City e a 777 Partners, respectivamente.
Os tradicionais clubes de futebol, como conhecemos até aqui, nasceram de ações voluntárias em comunidades. Nasceram de uma paixão, de fato. Nelson Rodrigues dizia que nada se compara à lealdade dos torcedores. O sujeito troca de tudo: de emprego, de casa, de mulher, mas não troca de time.

PREJUÍZOS

Ao longo dos anos, porém, os clubes se tornaram verdadeiros “zumbis econômicos”, afundados em dívidas, corrupção, má gestão e ausência de transparência. No modelo atual, a diretoria normalmente é eleita para um mandato de 2 ou 3 anos, em cargos sem remuneração e também sem accountability, numa gestão que mira o curto prazo e a eleição seguinte, sem planejamento estratégico.
Com a Lei da SAF, agora os clubes podem optar por um caminho mais promissor: o caminho da profissionalização da gestão e da estruturação empresarial. Eles passam a ter a oportunidade de serem geridos como empresas, com responsabilidades, com visão de longo prazo, com gestão de dono. E preservando sua identidade, tornando sua torcida cada vez mais fiel e apaixonada. Ganham todos!

PROFISSIONALIZAÇÃO

O futebol no mundo passa por intenso processo de profissionalização. Investidores da área calculam que, em 2021, a cadeia produtiva do futebol movimentou R$ 57,96 bilhões no Brasil. No mesmo ano, gestoras de Private Equity gastaram US$ 22 bilhões na Europa e US$ 3 bilhões nos EUA somente na aquisição de participações minoritárias em franquias esportivas.
bola de futebol; meio de campo; campo de futebol
Futebol é negócio Crédito: Freepik
Os números indicam que o futebol ainda é tratado de forma amadora no Brasil, mais como hobby do que como business. Estamos atrasados, e por conta disso vivenciamos um verdadeiro êxodo de talentos, vendidos a preços super baratos, pois os clubes endividados têm de fazer caixa sempre com urgência.
As estruturas de formação estão caóticas, os centros de treinamento, deteriorados, os jovens praticamente não podem contar com o adequado apoio médico, nutricional e com a devida formação de atleta.
Somos o maior exportador de jogadores do mundo, em número absoluto, e o 8º em valor transacionado. Grande maioria dos nossos clubes encontra-se em estágio falimentar. Há grande desorganização nas tratativas com os meios de comunicação. Há patrimônio construído a duras penas, abandonado ou subutilizado. A SAF tem potencial de mudar radicalmente esse quadro.
Já temos no Brasil 27 SAFs, em todas as divisões do Campeonato Brasileiro, ou seja, a profissionalização não está restrita somente na Série A. Todos os clubes podem se beneficiar da mudança: para isso, basta a aprovação do Conselho do clube, para que ele possa deixar de ser uma associação para uma sociedade anônima específica.
O número ainda é pequeno, mas estamos avançando. O business do futebol já despertou o interesse efetivo de players do mercado financeiro, como BTG e XP, que têm estruturado operações, apoiando os clubes no processo de profissionalização.
Futebol é um ativo escasso, não se cria um time da noite para o dia, por isso quem sai na frente, investindo nos clubes existentes, com certeza terá boas perspectivas de rentabilidade.

FIDELIZAÇÃO

Em um mundo onde a internet fragmentou a atenção das pessoas, o futebol se mostra um dos únicos entretenimentos que fidelizam o público ao canal de transmissão, daí o grande valor implícito neste business.
Em 2024, haverá uma grande revolução na negociação dos direitos de transmissão tanto na mídia tradicional como no streaming, por via da criação da LIGA, que organizará a negociação nos moldes do que acontece na Europa e USA. A expectativa é que os valores atuais tripliquem ou quadripliquem, o que vai fazer com que os clubes aumentem sua capacidade de investir e reter talentos.
E o Espírito Santo? Não podemos ficar fora desse movimento, tanto no olhar de transformar nossos times em SAFs, como também no olhar de oportunizar aos capixabas investirem nos fundos de private equity que estão por trás das compras dos clubes nacionais.
Futebol é o esporte mais popular do mundo. Vamos torcer para que possamos ter cada vez mais espetáculos acontecendo em campo, que as torcidas voltem a ter orgulho dos seus times, e que este esporte possa gerar cada vez mais riqueza para toda sociedade.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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