O país vive um intenso debate hoje sobre o pacote de corte de gastos do governo federal, para equilibrar as contas públicas e interromper um ciclo de déficit que já dura praticamente 10 anos. No entanto, vemos com espanto que parte da elite política e do setor público brasileiro age na contramão, ampliando as despesas, em vez de reduzi-las, como se vivesse em outro mundo, ignorando o risco de alta dos juros, do dólar e da inflação, sabotando o nosso próprio desenvolvimento econômico. É inacreditável.
O setor produtivo acompanha com preocupação a escalada da dívida pública brasileira e a notória dificuldade do governo para reduzir despesas, enquanto os poderes da república, em todos os níveis da federação, ampliam cargos e benefícios de toda ordem. Quase toda semana a imprensa registra casos assim. Parece que é um padrão de normalidade, como se não houvesse amanhã.
Esse comportamento observado no poder público é completamente diferente do setor privado, que busca eficiência, controle orçamentário, resultados e entregas. O que vemos, contudo, é um comportamento de uma minoria de caciques políticos e de gestores públicos, que adotam medidas que boicotam o desenvolvimento do próprio país, funcionando como uma trava.
Curioso é que quando vamos a Brasília para alguma solenidade ou lançamento de programa, os discursos oficiais são encantadores. Todos falam da riqueza e do potencial do Brasil, e chegamos a pensar: nossos problemas estão resolvidos! Não tem como dar errado! Infelizmente, a prática é outra.
Esse boicote contra o país acontece num momento crucial para a economia, com excelentes indicadores, o PIB crescendo acima do esperado, mercado de trabalho com pleno emprego, miséria e pobreza no menor patamar da história, de acordo com o IBGE, e uma vantagem competitiva global do Brasil, na agenda de transição energética. Temos abundância de recursos renováveis, matriz energética limpa e boa localização geográfica.
Considerando sua história e seu potencial, o país poderia também estar tendo uma atuação geopolítica mais proativa, com melhores relações com Estados Unidos, China e Europa, ampliando a nossa participação no comércio global. No entanto, estamos nos sabotando e perdendo oportunidades.
O pacote fiscal lançado dias atrás foi um bom exemplo de nossa contradição. Apesar dos indicadores econômicos positivos, o pacote foi visto com desconfiança porque denota a dificuldade que o governo tem de enfrentar de verdade a agenda de redução de despesas. E sem o equilíbrio das contas esse desempenho econômico não se sustenta no tempo.
Penso que a sociedade não é contra o controle de despesas, se for devidamente informada sobre a necessidade e o impacto que terá na economia real. A sociedade também não é contra programas sociais, desde que haja critérios e portas de saída.
O que se espera somente é que os investimentos sociais, incluindo educação e saúde, tenham resultados efetivos para a sociedade. Infelizmente, o que vemos é a expansão descontrolada dos gastos com pessoal, o inchaço da máquina pública, sem melhoria correspondente na qualidade dos serviços públicos e as estatais voltando a dar prejuízo, uma agenda que parecia superada.
O Brasil precisa lutar contra os que querem sabotar o desenvolvimento do país. Não podemos virar reféns de carreiras organizadas e com capacidade de lobby em Brasília, dos políticos que apresentam boa narrativa, mas que pouco cooperam realmente para colocar o Brasil em outro patamar de desenvolvimento.
Quem paga o preço por essa contradição somos todos nós, seja rico ou seja pobre. Todos sofremos com a falta de uma visão de estadista, que deve pensar na próxima geração, não na próxima eleição.
Precisamos também superar essa agenda política polarizada, que contamina o debate, distorce informações e nos impede de focar numa agenda realmente transformadora. Sim, nós temos enorme potencial, mas precisamos nos livrar dos sabotadores do futuro, que são verdadeiros exterminadores do nosso futuro.