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Na contramão

A política que boicota o país

O que se espera somente é que os investimentos sociais, incluindo educação e saúde, tenham resultados efetivos para a sociedade

Publicado em 07 de Dezembro de 2024 às 23:00

Públicado em 

07 dez 2024 às 23:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

O país vive um intenso debate hoje sobre o pacote de corte de gastos do governo federal, para equilibrar as contas públicas e interromper um ciclo de déficit que já dura praticamente 10 anos. No entanto, vemos com espanto que parte da elite política e do setor público brasileiro age na contramão, ampliando as despesas, em vez de reduzi-las, como se vivesse em outro mundo, ignorando o risco de alta dos juros, do dólar e da inflação, sabotando o nosso próprio desenvolvimento econômico. É inacreditável.
O setor produtivo acompanha com preocupação a escalada da dívida pública brasileira e a notória dificuldade do governo para reduzir despesas, enquanto os poderes da república, em todos os níveis da federação, ampliam cargos e benefícios de toda ordem. Quase toda semana a imprensa registra casos assim. Parece que é um padrão de normalidade, como se não houvesse amanhã.
Esse comportamento observado no poder público é completamente diferente do setor privado, que busca eficiência, controle orçamentário, resultados e entregas. O que vemos, contudo, é um comportamento de uma minoria de caciques políticos e de gestores públicos, que adotam medidas que boicotam o desenvolvimento do próprio país, funcionando como uma trava.
Sem arcabouço fiscal, o risco é a inflação crescer junto com a dívida pública
Elite política e setor público ampliam despesas e ignoram risco de alta dos juros, do dólar e da inflação Crédito: Freepik
Curioso é que quando vamos a Brasília para alguma solenidade ou lançamento de programa, os discursos oficiais são encantadores. Todos falam da riqueza e do potencial do Brasil, e chegamos a pensar: nossos problemas estão resolvidos! Não tem como dar errado! Infelizmente, a prática é outra.
Esse boicote contra o país acontece num momento crucial para a economia, com excelentes indicadores, o PIB crescendo acima do esperado, mercado de trabalho com pleno emprego, miséria e pobreza no menor patamar da história, de acordo com o IBGE, e uma vantagem competitiva global do Brasil, na agenda de transição energética. Temos abundância de recursos renováveis, matriz energética limpa e boa localização geográfica.
Considerando sua história e seu potencial, o país poderia também estar tendo uma atuação geopolítica mais proativa, com melhores relações com Estados Unidos, China e Europa, ampliando a nossa participação no comércio global. No entanto, estamos nos sabotando e perdendo oportunidades.
O pacote fiscal lançado dias atrás foi um bom exemplo de nossa contradição. Apesar dos indicadores econômicos positivos, o pacote foi visto com desconfiança porque denota a dificuldade que o governo tem de enfrentar de verdade a agenda de redução de despesas. E sem o equilíbrio das contas esse desempenho econômico não se sustenta no tempo.
Penso que a sociedade não é contra o controle de despesas, se for devidamente informada sobre a necessidade e o impacto que terá na economia real. A sociedade também não é contra programas sociais, desde que haja critérios e portas de saída.
O que se espera somente é que os investimentos sociais, incluindo educação e saúde, tenham resultados efetivos para a sociedade. Infelizmente, o que vemos é a expansão descontrolada dos gastos com pessoal, o inchaço da máquina pública, sem melhoria correspondente na qualidade dos serviços públicos e as estatais voltando a dar prejuízo, uma agenda que parecia superada.
O Brasil precisa lutar contra os que querem sabotar o desenvolvimento do país. Não podemos virar reféns de carreiras organizadas e com capacidade de lobby em Brasília, dos políticos que apresentam boa narrativa, mas que pouco cooperam realmente para colocar o Brasil em outro patamar de desenvolvimento.
Quem paga o preço por essa contradição somos todos nós, seja rico ou seja pobre. Todos sofremos com a falta de uma visão de estadista, que deve pensar na próxima geração, não na próxima eleição.
Precisamos também superar essa agenda política polarizada, que contamina o debate, distorce informações e nos impede de focar numa agenda realmente transformadora. Sim, nós temos enorme potencial, mas precisamos nos livrar dos sabotadores do futuro, que são verdadeiros exterminadores do nosso futuro.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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