Há duas semanas, escrevi neste espaço como os serviços de saúde norte-americanos alertaram que solidão e isolamento social causam mortes, por vários mecanismos. O bicho homem existe para interagir, desde que nossos ancestrais caçavam em grupo: dividindo tarefas, tinham mais sucesso.
O isolamento nas grandes cidades, o estilo de vida muito conectado, mas com pouca interação física, aumenta o risco de morte prematura em 1/3. São dados de pesquisas dos EUA que, obviamente, não podem ser transportadas automaticamente para o Brasil. Aqui, a pobreza extrema e a urbanização irregular criam desafios imensos adicionais. Mas existem muitas semelhanças que merecem uma reflexão. As famílias reduziram drasticamente de tamanho nas últimas décadas, a urbanização aumentou tempo gasto nos deslocamentos para o trabalho, e a imersão e tempo diário gasto em conexão em redes aumentou muito, em especial nas populações mais jovens.
As conexões sociais que as pessoas podem e devem criar dependem de vários fatores, mas têm três componentes vitais. Em primeiro lugar, é necessário focar a estrutura das conexões que fazemos: o número, a variedade e frequência das interações que cada um tem.
Como o tamanho das famílias se reduziu, é vital investir em círculo de amigos. Mesmo as interações familiares se fragilizaram na pandemia e é vital reativá-las. É fundamental que cada um se pergunte com quantas pessoas interage com frequência em uma semana e em um mês. Deve, de preferência, contar com as duas mãos.
As pessoas que moram sozinhas têm esse desafio redobrado. Em segundo lugar, é preciso investir na função desses relacionamentos. É importante que tais contatos sejam aptos a dar suporte emocional, orientação, conselhos e mesmo apoio em uma crise inesperada. Pergunte-se quantas pessoas passariam a noite com você em um hospital, ou o(a) acompanhariam em uma consulta médica. O vice-versa também conta.
Por último, e não menos significativo, importa a qualidade das conexões criadas socialmente. Ë necessário que elas provoquem satisfação, prazer genuíno na convivência e sensação de pertencimento. Enfim, investir solidamente em boas amizades e conexões é quase como investir em um bom seguro ou um plano de saúde.
As grandes corporações já aposentaram as dezenas de salas isoladas e criaram grandes salas e salões com mesas conjuntas. É bom para o sucesso dos negócios.