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Saúde

Aids e negação da ciência: lições da História para os dias atuais

Quando os coquetéis anti-HIV foram descobertos, criando esperanças para uma doença até então inexoravelmente mortal, ideias e teorias da conspiração também circulavam

Publicado em 04 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 nov 2021 às 02:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Em julho de 1996, em um congresso em Vancouver, os cientistas David Ho e Martin Markowitz anunciavam que a combinação de três medicamentos, o coquetel anti-HIV, suprimia completamente a multiplicação do vírus da Aids, criando esperanças para uma doença até então inexoravelmente mortal.
Ironicamente, no mesmo ano, um respeitado professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Peter Duesberg, lançava o livro “Inventando o Vírus da Aids”, no qual defendia enfaticamente que a Aids não era contagiosa, mas uma doença causada por comportamentos inadequados das pessoas e que o vírus HIV era uma invenção da indústria farmacêutica. Duesberg ironizava o uso de preservativos e as precauções com sangue das pessoas soropositivas para o HIV. Ele também acusava os cientistas e médicos que prescreviam AZT e outros antivirais de causarem danos irreparáveis aos pacientes.
Caso o leitor se interesse, pode comprar o livro no original em inglês na Amazon por módicos $ 9,99. O que hoje é História causou inúmeros problemas na época. Não eram poucos os pacientes que, pouco tolerantes com os efeitos colaterais dos primeiros coquetéis (às vezes mais de 15 pílulas por dia), preferiam dar crédito ao prestigiado cientista de Berkeley. Não havia Facebook, Instagram ou YouTube, mas as ideias e teorias da conspiração também circulavam, felizmente com menos vigor.
A África do Sul, do venerado líder Nelson Mandela, namorou o negacionismo dessas teorias. O sucessor de Mandela, Thabo Mbeki, decidiu adotar oficialmente a posição de Duesberg. Afirmou que seu país tinha o direito de resistir ao “terrorismo” da maioria dos cientistas ocidentais e que os coquetéis eram uma pressão inaceitável da indústria farmacêutica. O governo da África do Sul defendia tratamentos com ervas medicinais. O Ministério da Saúde daquele país passou a propor o uso de alho, sumo de limão e raiz de beterraba como receita contra a Aids.
Acredita-se que perto de 400 mil mortes teriam sido evitadas e que o presidente Mbeki deveria ter sido julgado por crimes contra a humanidade. O CNA, no entanto, partido no poder, não o permitiu, e Mbeki morreu sem prestar contas por sua política equivocada. Nos dias de hoje, a África do Sul, apesar de enfim distribuir os medicamentos dos modernos coquetéis antiaids, ainda permanece com um dos maiores índices de infecção do planeta.
Quaisquer semelhanças com a negação da ciência e das vacinas hoje é só coincidência.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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