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Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço quer refletir sobre saúde e qualidade de vida na pandemia.

Covid-19: o homem recebeu alertas e precisa se conscientizar

Sempre convivemos com ameaças de vírus e bactérias; são conhecidas as devastações causadas pelas epidemias de peste na Idade Média, mas as rápidas conexões globais da atualidade potencializaram os riscos

Publicado em 20/05/2021 às 02h00
Menino olhando pela janela usando máscara
O homem se tornou a espécie dominante de um planeta com recursos finitos. Crédito: Freepik

No ano passado, a OMS foi pressionada para uma revisão imparcial da resposta internacional à pandemia. Um painel independente foi criado e desenvolveu extenso relatório, apresentado agora no final de maio. As conclusões são importantes! O homem se tornou a espécie dominante de um planeta com recursos finitos. Sempre convivemos com ameaças de vírus e bactérias; são conhecidas as devastações causadas pelas epidemias de peste na Idade Média, mas as rápidas conexões globais da atualidade potencializaram os riscos.

Na verdade, o homem recebeu alertas: o surgimento da SARS em 2003 causou 774 mortes com 8.096 casos! Aquele primeiro coronavírus só era transmitido quando o paciente estava muito grave, hospitalizado e isolado. Depois surgiram a gripe suína de 2009, o surto devastador de Ebola em 2014-2015 (praticamente restrito a países africanos) e o Zika vírus, cujo risco às gestantes levou à queda de nascimentos em vários países.

O homem precisa se conscientizar de que a devastação das florestas e as repetidas agressões à biosfera trazem consequências. A Covid-19 é uma zoonose, surgida na natureza, como surgiu a AIDS décadas atrás. Aliás, é curioso notar que as teorias conspiratórias existiram também na época do surgimento do vírus HIV, então supostamente criado em laboratório.

O painel independente alerta que a crise ainda persiste. Não se trata apenas de milhões de vidas perdidas e histórias descontinuadas precocemente. A perda econômica global é gigantesca. Até o final de 2021 são estimadas perdas de 10 trilhões de dólares. Trata-se do maior choque para a economia global desde a segunda guerra mundial! Cerca de 90% das crianças em todo o mundo ficaram longe das escolas, com perdas e consequências ao aprendizado que se farão sentir por anos a fio.

Mais de cem milhões de pessoas foram colocadas em extrema pobreza vivendo com menos de 2 dólares por dia. As mulheres dobraram suas jornadas já que, além do próprio trabalho, são as principais responsáveis por velar os doentes das famílias, assistir aos filhos em ensino escolar, além dos afazeres domésticos. O trabalho informal em todo o mundo não teve suporte adequado. Vários setores de entretenimento e turismo desapareceram.

O painel conclui que a resposta mundial foi burocrática e lerda, ineficiente para um vírus de transmissão respiratória, rápida e eficaz. A própria OMS precisa ser repensada e agilizada, mas não abandonada. Os nacionalismos toscos de Trump e sua cópia mal feita aqui não levam a lugar nenhum. Os organismos internacionais construídos com sacrifício no pós-guerra precisam de aperfeiçoamento e correção de rota. O mundo não anda para trás. Até as vacinas são produtos de um esforço global.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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