O tapa no rosto dado pelo deputado petista Washington Quaquá (RJ, vice-presidente nacional do PT) no deputado capixaba Messias Donato (Republicanos-ES) só evidenciou aquilo que todos os que acompanham a política brasileira já sabiam: as próximas eleições serão novamente marcadas pela polarização entre as duas correntes majoritárias radicais do país, a dos petistas e a dos bolsonaristas.
A agressão ocorreu na sessão de promulgação da reforma tributária no plenário do Congresso Nacional – que deveria ter caráter festivo e solene – no dia 20 de dezembro, ocasião em que os petistas gritavam “Lula guerreiro do povo brasileiro” e os bolsonaristas contra-atacavam: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”.
O deputado petista não se sente arrependido do que fez. Logo após o incidente disse os jornalistas: “Dei um, dou dois, dou três, não tenho problema nenhum (...) comigo a porrada canta (...) dei-lhe um tapa na cara, e um bem dado”. O episódio, agora, será submetido ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Não há dúvidas que é um caso perfeito e acabado de perda de mandato. Se o Congresso terá coragem e disposição de cassar o deputado valentão, só o tempo dirá.
A polarização entre lulistas e bolsonaristas está também escancarada na pesquisa divulgada pelo Datafolha em 19 de dezembro. Nela, 92% dos eleitores pesquisados responderam que não se arrependem do voto que deram no segundo turno das eleições de 2022. Trinta por cento dos entrevistados se declararam petistas convictos, 25% bolsonaristas convictos, 10% se declararam mais próximos do PT, 7% mais próximos de Bolsonaro e 21% se declararam neutros enquanto 5% preferiam dizer que não tinham preferências por um lado nem por outro.
Na mesma época, de 14 a 18 de dezembro, a Genial/Quaest fez uma pesquisa de avaliação do Governo Lula e a polarização de posições políticas mais uma vez ficaram evidentes. Enquanto 36% disseram aprovar o Governo Lula (em outubro eram 38%), 29% desaprovavam o governo (mesmo percentual de outubro) e 32% o consideravam regular (em outubro eram 29%). Comparados esses números com a pesquisa de agosto, a diferença entre os que aprovavam e os que desaprovavam o governo caiu de 18% para 7%.
A classe política, que vive o clima eleitoral durante todo o tempo, já percebeu que o próximo pleito continuará a ser marcado pela polarização. Bolsonaro, mesmo inelegível, percorre o país de ponta a ponta ao lado de sua mulher, e já começa a anunciar quais são os seus candidatos para ampliar a sua área de influência.
Lula, contradizendo o marketing de seu governo que anuncia “um Brasil e um só povo”, tem alertado os petistas que o adversário a ser vencido é o bolsonarismo. Na conferência eleitoral do PT, realizada em dezembro, após afirmar que a próxima eleição será Lula contra Bolsonaro, disse para os petistas: “Vocês sabem que não podem ficar com medo, ficar com vergonha, enfiar rabo entre as pernas; quando um cachorro late para a gente, a gente não abaixa a cabeça, late para ele para ele ficar com medo da gente”. Será que Washington Quaquá seguiu os conselhos de Lula?
O pronunciamento público de Lula feito no Natal pela TV também evidencia a polarização. Embora tenha criticado “o ódio de alguns contra a democracia”, defendido ações de combate a discursos de ódio e pedido união nacional, Lula não deixou de criticar o governo anterior ao dizer que o país “voltou a ter um governo de verdade”.
Bolsonaro, por sua vez, não tem economizado críticas a Lula, como fez recentemente com relação ao aumento da quantidade de ministérios: “Mais um ministério criado pelo desgoverno que continua jogando no lixo tudo que o país precisa para prosperar economicamente, inchando mais ainda a máquina pública e massacrando o brasileiro com aumento de impostos e taxas”.
Em outras palavras, a polarização interessa aos dois na medida em que estreita ainda mais o espaço onde poderia surgir e crescer uma alternativa para os democratas-liberais autênticos.
Então, amigos, só nos resta estar preparados para enfrentar, nas eleições deste ano, o repeteco da polarização entre o populismo da esquerda e o populismo da direita. O final desse filme todos nós já conhecemos e não é bom para o país.