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Economia

O governo Lula em algum lugar do passado

Lula e seu governo tentam navegar nos mares da modernidade ancorados em algum lugar do passado. Passado que acreditava que só a autoridade estatal e a sua intervenção na atividade econômica eram capazes de promover o desenvolvimento

Publicado em 06 de Setembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

06 set 2024 às 02:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Tem razão o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, quando disse, na entrevista que concedeu a Luciano Huck –  divulgada no dia 27 –, que o presidente Lula “pensa na Rússia como se ainda existisse a União Soviética”. Ele se referia ao fato de o governo brasileiro, embora sustente ter uma posição de neutralidade com relação à guerra entre Rússia e Ucrânia, tem agido de forma alinhada com as posições de Vladimir Putin.
Tanto é assim que o governo brasileiro assinou um tratado com a China apoiando um plano de paz para o fim da guerra que não prevê a devolução dos territórios ucranianos anexados por Moscou. Tal plano foi repudiado pela maior parte da comunidade internacional por levar em conta apenas os interesses russos. Sobre a posição brasileira, disse Zelensky: “Não é uma fala honesta. Não é honesta conosco  nem com o povo brasileiro. Porque todo mundo sabe quem iniciou essa guerra”.
A crítica de Zelensky foi ainda mais clara quando ele afirmou que o Brasil, embora seja “um grande país democrático”, está se alinhando, na questão da invasão da Ucrânia, a governos não democráticos como Rússia, China, Coreia do Norte e Irã: “Não se trata de relações comerciais e econômicas, mas de uma guerra, não é sobre relações econômicas, é sobre geopolítica, valores, pessoas, é sobre democracia, propósito e liberdade”.
Se com relação à invasão russa na Ucrânia o governo brasileiro adota uma posição atrasada, atrelada ao século passado, o mesmo ocorre nas privatizações de empresas públicas. No dia 27, ao visitar ao centro de operações da Telebrás, Lula afirmou: “Como é que um país que consegue ter uma empresa dessa qualidade resolve privatizá-la? Vamos dá-la para quem? Quem é que iria ficar com as informações que o Estado tem, e que somente o Estado tem de ter?” Lula deixou de mencionar que, após décadas de atraso, as telecomunicações brasileiras tiveram um avanço extraordinário graças à política de privatizações.
Na mesma ocasião Lula reafirmou a sua visão estatista da economia, ao comentar a escolha do novo presidente da Vale ocorrida no dia anterior: “A Vale, que tinha uma diretoria, eu sabia quem era o presidente da Vale, a gente sabia quem era. Uma tal de corporate que, sabe, não tem dono. Um monte de gente com 2%, um monte de gente com 3%. É que nem cachorro de muito dono. Morre de fome ou morre de sede porque todo mundo pensa que colocou água, todo mundo pensa que deu comida e ninguém colocou”.
A sua queixa, sabe-se, tem a ver com as suas tentativas frustradas de tentar interferir na escolha do presidente da empresa que, ninguém desconhece, está privatizada há 27 anos.
A visão distorcida do papel do governo em uma economia moderna não é exclusiva de Lula. Seguindo o pensamento do presidente que acha que o governo pode tudo – como nas inúmeras vezes em que tentou, nos últimos anos, interferir nas decisões do Banco Central –, o ministro das Minas e Energia Alexandre Silveira, no dia 21, ameaçou intervir na Aneel, Agência Nacional de Energia Elétrica.
Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva speaks during the national technology conference in Brasilia, Brazil July 30 2024. REUTERS/Adriano Machado ORG XMIT: GGGAHM004
Lula Crédito: REUTERS/Adriano Machado
Em ofício enviado à agência, em que cobrava agilidade na análise de processos de interesse do governo, escreveu: “A persistência desse estado de coisas impelirá este ministério a intervir”. Explicou o ministro que “quem ganha eleição, numa democracia, tem o direito de ter um governo que formule as políticas públicas e que os agentes reguladores executem essas políticas”.
Esqueceu-se o ministro que a legislação, alinhada às melhores práticas de outros países, garante às agências reguladoras autonomia funcional, decisória, administrativa e financeira, sem relação de tutela ou submissão entre governo e os seus diretores. Esses diretores exercem mandatos e, depois de aprovados pelo Senado, só saem dos cargos voluntariamente ou ao final do período. Só o Congresso, com o auxílio do TCU, pode fiscalizar as agências que são órgãos de Estado e não de governo.
É assim que Lula e seu governo tentam navegar nos mares da modernidade ancorados em algum lugar do passado. Passado que acreditava que só a autoridade estatal e a sua intervenção na atividade econômica eram capazes de promover o desenvolvimento.
Era essa a receita do Estado forte, autoritário, intervencionista e regulador, felizmente superada pelos ventos da livre iniciativa que predominam no mundo moderno desde a queda do muro de Berlim e a implosão da União Soviética ocorridas no final do século passado.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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