Assim como o negacionismo com relação à pandemia da Covid-19 e o seu flerte com o golpe militar foram o ponto fraco do governo Bolsonaro – e que, com certeza, contribuíram para a derrota do ex-presidente na tentativa de se reeleger – o viés ideológico que norteia a atual política externa está se tornando o calcanhar de Aquiles do governo Lula.
O desgaste sofrido por Bolsonaro durante o seu governo e o declínio dos índices de aprovação de Lula levam à conclusão de que o maior adversário de Bolsonaro foi ele mesmo, assim como Lula está sendo atualmente o maior adversário do seu próprio governo.
O episódio mais recente que compromete a imagem de Lula está atrelado ao vexame das eleições venezuelanas. Enquanto os resultados oficiais têm sido contestados pela maior parte da comunidade internacional, Lula prefere aguardar pacientemente que Maduro – ou a Justiça por ele controlada – apresente as atas eleitorais cuja exibição tem sido negada mesmo passadas três semanas do pleito.
Como disse o ex-presidente da Costa Rica e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1987 pelo seu papel como negociador nas organizações de paz na América Central, Óscar Arias, é uma perda de tempo pedir a Maduro “por favor, entregue as atas” já que as atas não serão entregues “porque não conseguirão refazê-las”.
E mesmo que tais atas fossem apresentadas agora, com todos os carimbos possíveis visando autenticá-las, os episódios que marcaram as eleições venezuelanas apontam para um pleito fraudulento com cassações, prisões e intimidações de opositores ao regime, sem falar nas dificuldades de acesso às urnas enfrentadas por muitos eleitores, entre eles os 7 milhões de refugiados.
Depõe contra Lula o fato de que mesmo com tantas truculências cometidas pelo governo Maduro – antes, durante e depois das eleições – ele ainda tenha dito, logo após o pleito, que não viu “nada de grave, nada de assustador” nas eleições, enquanto o seu Assessor Especial enviado a Caracas afirmava que também nada viu “de anormal”.
Ao mesmo tempo, o PT de Lula se adiantava, no dia seguinte às eleições, a emitir nota cumprimentando Maduro pela vitória. Sem falar que Lula, em maio, recebeu Maduro em Brasília e o aconselhou a construir “a sua própria narrativa” para demonstrar que o conceito de democracia é relativo e que o governo venezuelano era, sim, uma democracia consolidada.
Não custa lembrar, ainda, que durante o processo eleitoral venezuelano, a maior opositora de Maduro, Maria Corina Machado, foi impedida de se candidatar, o que levou Lula a, ironicamente, fazer uma comparação com a sua situação de alguns anos atrás, ao dizer que ele também foi impedido de concorrer às eleições, mas “não ficou chorando” e sim recorreu à Justiça. Só faltou mencionar que a tal “justiça” venezuelana é totalmente controlada pelo próprio Maduro.
Diante da intensa reação internacional ao teatro montado por Maduro, Lula chegou a dizer, na semana passada, que que “ainda não” reconhecia a reeleição de Maduro porque “ele está devendo uma explicação para o mundo”, crítica incapaz de disfarçar a proteção que sempre deu ao regime bolivariano.
A proteção de Lula a Maduro não é o único equívoco da política externa brasileira. Basta lembrar a desastrada tentativa de Lula de intermediar uma saída para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia ao dizer que a Ucrânia não deveria ter a ilusão de poder continuar com os territórios que haviam sido invadidos pela Rússia. E, ainda, quando comparou ao holocausto a reação israelense ao ataque do Hamas se colocando claramente ao lado do grupo terrorista no conflito em Gaza.
Recentemente Lula pagou caro por apoiar ditaduras por razões ideológicas. Após aplaudir anos a fio o ditador Ortega, Lula provou a truculência do ditador ao ver expulso da Nicarágua o embaixador brasileiro por não ter comparecido às comemorações do aniversário da Revolução Sandinista em 19 de julho. Surpreso e desapontado, Lula não teve outra alternativa a não ser também expulsar do Brasil a embaixadora nicaraguense.
Todos esses fatos dão músculos às críticas dos opositores de Lula de que ele apoia ditadores simplesmente por serem de esquerda, mesmo que eles cometam atrocidades como a ameaça que Maduro fez, no final do ano passado, de invadir a maior parte do território da Guiana. Ou, mais recentemente, quando disse que, se perdesse as eleições, poderia haver um “banho de sangue” e uma “guerra civil” na Venezuela.
É assim, de tropeço em tropeço, que a política externa de Lula dá a sua contribuição para o desgaste da imagem do presidente tornando ele próprio o maior adversário do seu governo.