Os pré-candidatos a prefeito e vereador, além dos marqueteiros e analistas políticos, estão se esforçando para tentar responder à pergunta: as eleições de 2024 serão marcadas pela polarização entre direita (leia-se Bolsonaro) e esquerda (leia-se Lula)?
Ou, como são eleições municipais, o eleitor tenderá a direcionar o seu voto para os candidatos que apresentarem melhores propostas para a sua cidade? Se conseguirem responder corretamente à pergunta (ou se tiverem uma bola de cristal para ajudá-los a encontrar a resposta) provavelmente terão uma vantagem competitiva valiosa em relação aos seus adversários.
É provável que, em vez de uma, a pergunta comporte várias respostas porque não há dúvidas que o pleito deste ano guarda diferenças significativas em relação aos de 2016 e 2020. Em 2016, como consequência das grandes manifestações ocorridas a partir de junho de 2013 que resultaram no impeachment de Dilma Rousseff, o ambiente político ficou livre para a eleição de outsiders, candidatos sem grande vivência político-partidária, que receberam o voto na onda da renovação e condenação aos políticos tradicionais. Foram os casos, por exemplo, de João Dória, em São Paulo, Alexandre Kalil, em Belo Horizonte, e Sérgio Meneghelli, em Colatina.
Em 2020 as eleições foram marcadas pela pandemia, o que resultou na eleição de políticos mais alinhados com protagonistas do momento político da época, como Bruno Covas, em São Paulo (apoiado por João Dória que surgia como o líder do movimento em favor da vacina brasileira contra a Covid-19), e Lorenzo Pazolini, em Vitória, reconhecido como mais alinhado à corrente bolsonarista que negava a gravidade da doença. O pleito de 2020 marcou também uma maior pulverização partidária, com perdas significativas nas legendas tradicionais (como MDB, PSDB e PT) e ascensão de siglas novas ou repaginadas como o DEM, Progressistas e PSD.
Já o pleito de 2024 será marcado por outras variáveis também importantes. A primeira delas é a polarização nacional entre direita e esquerda, acirrada com a eleição e posterior derrota de Bolsonaro (em 2018 e 2022) o que fatalmente resultará em “candidatos de Bolsonaro” e “candidatos de Lula”, principalmente em capitais como São Paulo onde a disputa já está posta entre Ricardo Nunes e Guilherme Boulos, e no Rio entre Alexandre Ramagem e Eduardo Paes.
Mas é preciso levar em consideração também, como lembra o jornalista Iuri Pitta, que as próximas eleições ocorrerão sob o reflexo da execução de obras públicas significativas custeadas pelas robustas emendas individuais dos parlamentares federais que somaram, em 2023, R$ 18,3 bilhões (beneficiando 5.482 cidades), além dos R$ 8,1 bilhões das transferências especiais (também conhecidas como emendas Pix) destinadas a 4.819 municípios. Tais investimentos nos municípios são substancialmente maiores do que o ocorrido nos anos anteriores, mais do dobro do que foi investido em 2022.
Outra mudança significativa está no financiamento público das campanhas eleitorais que chegará a R$ 4,9 bilhões, um valor 145% maior que o gasto na campanha de 2020 (que foi e R$ 2 bilhões). Ou seja, será gasto nas eleições municipais o mesmo montante aplicado na campanha nacional de 2022. Como a divisão desse dinheiro se fará com base na proporção de parlamentares filiados a cada partido, quem terá mais recursos para gastar na campanha serão os grandes partidos que possuem as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, ou seja, PL, PT, União Brasil e PP, o que pode indicar que estarão aí os candidatos com maior chance de vitória.
Diante de tantas variáveis, o mais provável é que nas maiores cidades – como no Rio, São Paulo e Belo Horizonte - a polarização entre a direita e a esquerda deve prevalecer na escolha dos eleitores, tendendo à nacionalização do debate como um ensaio para o que virá na disputa presidencial em 2026.
Nos municípios pequenos e médios, entretanto, o que deve sobressair é o olhar para as necessidades locais e para o perfil empreendedor de cada candidato. É o caso que possivelmente ocorrerá em cada um dos municípios da Grande Vitória nos quais o eleitor tenderá a colocar em julgamento as atuais administrações e a capacidade de cada um dos concorrentes de enfrentar – e resolver – os problemas da cidade.