Quando me mudei para Vitória, os carros de Vila Velha ainda exibiam placas com o nome “Espírito Santo”. Embora a cidade fosse, há séculos, chamada de “Vila Velha” – nome com o qual o município foi criado em 1890 –, durante algum tempo, até 1959, o seu nome oficial foi “Espírito Santo”.
Certamente isso era uma herança do nome “Vila do Espírito Santo” dado pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho quando chegou à Prainha em 23 de maio de 1535. Não sei se “chegou” é o nome adequado para retratar o desembarque já que Coutinho foi recebido, segundo os historiadores, com uma chuvarada de flechas disparadas pelos indígenas enfurecidos com a invasão.
Eu me mudei para Vitória para estudar no Colégio Estadual e aqui fiquei até hoje, já passados 62 anos. Meu pai era capixaba da gema, filho de pai português e mãe espanhola, nascido em uma casa situada atrás da catedral. Eu achava lindo o relógio da Praça Oito que, na época, tocava os primeiros acordes do Hino do Espírito Santo a cada hora. Ao passar as férias com meus tios e primos, em um casarão na rua Pedro Palácios, me encantavam o porto e seus navios, e a maravilhosa Loja Helal Magazin, em frente à Sapataria Indígena.
Sobre o Hino do Espírito Santo, uma curiosidade: como sua letra foi, originalmente, um poema dirigido aos estudantes capixabas, há versos que lembram fragilidades, como “nossos braços são fracos, que importa?”, “suprem a falta de idade e de força” e “se as glórias do presente forem poucas”.
Mas o hino dá um claro recado de esperança no futuro quando diz “em busca de um futuro esperançoso”, “temos fé, temos crença a fartar e “venham louros, coroas, venham flores”. O que eu acho do nosso hino? Acho lindo. É uma pena que seja pouco conhecido.
Outra lembrança arraigada na minha memória é a das luzes de Vitória avistadas quando chegávamos de trem da Vitória a Minas, à noite, na antiga Estação Pedro Nolasco em Argolas. São essas as luzes que fazem a nossa capital ser chamada, ainda hoje, de “cidade presépio”. Ao desembarcar do trem, subíamos com as malas em uma catraia que atravessava a baía e nos deixava no centro de Vitória. Era, então, só subir a escadaria Maria Ortiz para chegarmos em casa.
De Vila Velha, guardo no coração bons momentos da minha juventude. Ao iniciar no jornalismo, fiz a cobertura das sessões da Câmara Municipal e cheguei a ser agraciado com Comenda Vasco Fernandes Coutinho que me foi concedida durante uma das festividades de 23 de maio. Por um curto período, ocupei uma cadeira na Academia de Letras Humberto de Campos, onde escolhi Guimarães Rosa como patrono.
Um dos meus melhores passeios é subir a pé o penhasco do Convento da Penha. Perdi a conta das romarias das quais participei. Estão guardadinhas no meu coração as muitas lembranças dos últimos anos de meus pais vividos no centro de Vila Velha e no Sítio Batalha. Uma de minhas netas – e eu concordo com ela – elegeu a Praia da Costa como a melhor praia do mundo. Moram em Vila Velha as minhas quatro irmãs, o que demostra, com isso, que têm ótimos gostos.
Hoje, 23 de maio, Vila Velha está em festa. Como ocorre todos os anos, recebeu o “fogo simbólico” e voltou a ser, pelo menos por uns dias, a capital do Estado, como era de fato até 1549. O ponto alto da festa, como sempre, é o desfile dos estudantes e militares. Para fechar a programação, os shows vão se suceder no sítio histórico da Prainha, em frente à magnífica Igreja do Rosário, com justiça tombada como Patrimônio Histórico já que se trata de uma das mais antigas do país. Igreja que é, sem favor algum, um dos marcos da colonização da nossa terra.
E tudo isso, como convém, acontece sob as bençãos de Nossa Senhora da Penha, a Nossa Senhora das Alegrias!