Quando pensávamos que o governo Bolsonaro já havia ultrapassado todos os limites possíveis de cometer bobagens em política externa, como quando repetia piadinhas sobre a China e a Covid-19 – lembram-se de quando colocou em dúvida a eficácia da “vachina”? – e se posicionou ao lado da invasora Rússia na sua estúpida guerra contra a invadida Ucrânia, Lula da Silva aparece no cenário superando o seu antecessor na arte de cometer desatinos nas relações internacionais.
Sem se limitar a defender as posições russas – a ponto de o porta-voz do Conselho de Segurança da Casa Branca ter dito que o presidente brasileiro repetia a “propaganda russa e chinesa sem olhar para os fatos” – Lula comete um erro ainda mais escandaloso ao receber e elogiar o presidente venezuelano Nicolas Maduro no último dia 29, véspera do encontro de dez presidentes de países sul-americanos ocorrido em Brasília.
Além da recepção calorosa a Maduro – seguida de uma reunião com ministros e embaixadores no Palácio do Planalto para ampliar as relações entre os dois países – Lula, contrariando o que dizem os organismos internacionais, assegurou aos jornalistas que o regime venezuelano é uma democracia e não uma ditadura.
Disse ele que o governo de Maduro “é vítima de narrativas” e que “o preconceito contra a Venezuela é muito grande”. Por isso, Lula aconselhou a Maduro a falar para a sua “imprensa livre” – como se a Venezuela tivesse imprensa livre – para construir “a sua própria narrativa”.
A melhor resposta a Lula foi dada, no mesmo dia, pelo presidente do Chile, Gabrel Boric, um político reconhecidamente de esquerda, para quem a situação da Venezuela “não é uma construção narrativa, é uma realidade, é séria”. “Tive a oportunidade de vê-la de perto nos rostos de centenas de milhares de venezuelanos que, hoje, vieram para a nossa pátria e que exigem também uma posição firme e clara de que os direitos humanos devem ser respeitados sempre e em qualquer lugar, independente da coloração política do atual governante”, disse Boric para completar: “Isso se aplica a todos nós”.
O que Lula fingiu ignorar – e que Boric fez questão de lembrar – é que não há narrativa capaz de maquiar as atrocidades cometidas pela ditadura de Maduro e a crise que assola a Venezuela. São 7 milhões os venezuelanos que fugiram em massa da Venezuela, para diversos países da América do Sul, entre quais o Brasil, em busca de liberdade e comida.
Só não vê quem não quer, nas cidades brasileiras, famílias inteiras de refugiados venezuelanos à procura de proteção. Maduro, e o seu antecessor Hugo Chávez, sufocaram a oposição e amordaçaram a imprensa e tiveram seus abusos documentados pelas Nações Unidas e investigados no Tribunal Penal Internacional que apura crimes contra a humanidade.
Não é sem razão que a Venezuela está na 147ª colocação no ranking de democracia do Economist Democracy Index, último lugar na América Latina e Caribe, atrás até mesmo de Cuba e Nicarágua.
Antes de exigir respeito à “soberania” venezuelana, Lula deveria ler o relatório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos onde estão documentados “detenções arbitrárias, maus-tratos e tortura” contra os críticos de Maduro. Se tivesse feito isso antes de receber Maduro com honras de chefe de Estado, Lula não teria colocado o Brasil, mais uma vez, na condição de alvo de críticas do mundo democrático, fazendo relembrar o episódio de julho de 2014, durante o governo Dilma, quando o nosso país chegou a ser chamado de “anão diplomático” pelo porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Israel.
Os salamaleques feitos a Maduro desgastaram ainda mais as relações de Lula com o mundo democrático e com o Congresso Nacional. Jânio Quadros, em 1961, recebeu e condecorou Che Guevara com a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul e, a partir daí, não conseguiu evitar que o seu governo descesse ladeira abaixo. É uma pena que Lula não tenha aprendido essa lição que a história lhe dá de graça.