Se alguém tinha dúvidas de que o presidente Bolsonaro se dedica a preparar um golpe de Estado, essas dúvidas devem ter se dissipado nos últimos dias. Não é de hoje de Bolsonaro repete que as eleições de 2022 podem não ocorrer se o “voto impresso e auditável” não for adotado. Com frases ambíguas, faz ameaças dia sim e no outro também – “ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições"; “se este método continuar aí (...) eles vão ter problemas, porque algum lado pode não aceitar o resultado; este (...), obviamente, é o nosso lado".
Com o seu menosprezo à gravidade da Covid-19 e a sua incompetência no combate à disseminação do vírus – que colocaram o Brasil entre os países recordistas de mortes na pandemia – Bolsonaro se desespera ao ver os índices de rejeição ao seu governo batendo recordes na mesma proporção em que as suas chances de reeleição viram pó. Esse desespero se traduz em ataques cada vez mais violentos às instituições, notadamente ao Poder Judiciário e ao sistema eleitoral. Repete a estratégia que o seu ídolo Donald Trump tentou – e ainda tenta – nos Estados Unidos.
Basta lembrar o que disse Bolsonaro sobre a invasão do Capitólio pelos partidários de Trump: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problemas piores que os Estados Unidos”. Bolsonaro segue a mesma trilha trumpista de disseminar a versão de que o sistema eleitoral pode ser fraudado. Repetiu tanto a ladainha que foi desafiado a apresentar provas “em 15 dias” de fraudes na urna eletrônica, pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral Luis Felipe Salomão. Tais provas não foram apresentadas, nem mesmo quando Bolsonaro anunciou que iria mostrá-las no último dia 29. Nem assim o presidente deixou de repetir, nos dias seguintes, a mesma narrativa fantasiosa.
O presidente do Supremo já havia se pronunciado sobre outro discurso distorcido de Bolsonaro – o de que o presidente havia sido impedido de agir no combate à pandemia – ao afirmar que “uma mentira repetida mil vezes não vira verdade”. A resposta cabe também como uma luva ao discurso do presidente sobre o sistema eleitoral.
Mas as melhores respostas vieram nesta semana. A primeira, na nota garantindo “a segurança, transparência e auditabilidade do sistema” eleitoral assinada por todos os 18 ex-presidentes do TSE, desde 1988, o atual presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, e os prováveis futuros presidentes do mesmo tribunal.
A segunda resposta, mais contundente, veio na reabertura dos trabalhos da Corte Eleitoral, com um inquérito administrativo para apurar as acusações sem provas, e o pedido ao STF – já aceito – para incluir Bolsonaro no inquérito das fake news. O presidente do TSE, Luis Roberto Barroso, sintetizou o motivo das decisões: “A ameaça à realização de eleições é uma conduta antidemocrática”.
É salutar ver que, finalmente, as instituições que sustentam a democracia brasileira começaram a reagir com seriedade às ameaças golpistas de quem nunca acreditou na democracia.