Os brasileiros, estarrecidos, estão assistindo ao desmonte da Operação Lava Jato patrocinado por forças favoráveis às práticas de corrupção que, sabemos todos, são as responsáveis por eternizar os nossos mais dolorosos problemas sociais. Mesmo com os resultados das urnas de 7 de outubro, que flagrantemente explicitaram a repulsa aos corruptos e à impunidade, essas forças se mobilizam, escancaradamente, com o intuito de derrubar os pilares do processo de combate à corrupção iniciado em 2005 com a apuração e condenação dos responsáveis pelo “mensalão”.
Foi em 18 de maio de 2005, há exatos 14 anos, que a revista “Veja” publicou a reportagem que desnudava para o país a corrupção dos Correios – “O vídeo da corrupção em Brasília” – primeiro de uma série de escândalos ligados a desvios de dinheiro público que resultaram – graças ao empenho do ministro Joaquim Barbosa, no STF – na condenação inédita de peixes graúdos da cena política e empresarial brasileira.
O combate à corrupção não se restringiu ao “mensalão”. A prisão de um doleiro e de um ex-diretor da Petrobras, em março de 2014, escancarou para o país um esquema de corrupção 30 vezes maior que o do “mensalão”. Tendo como epicentro a Petrobras, a maior estatal brasileira, o escândalo recebeu o nome de “petrolão” e a investigação o de “Lava Jato”, local da prisão do doleiro. A Lava Jato, ainda em curso, comprovou a existência de um gigantesco esquema de desvio e lavagem de dinheiro público e condenou mais de cem pessoas, inclusive um ex-presidente da República.
A reação ao combate à corrupção e ao fim da impunidade, entretanto, se mostra cada vez mais presente. Grupos de deputados – aliando os oposicionistas do PT aos fisiologistas do “Centrão” – se unem para impedir que o Coaf, órgão que fiscaliza as ocorrências suspeitas de atividades ilícitas relacionadas à lavagem de dinheiro, seja transferido para o Ministério da Justiça, onde está Sérgio Moro, autor da maioria das sentenças de condenações decorrentes da Lava Jato. Estes mesmos grupos patrocinam o afastamento operacional de auditores fiscais e procuradores com o nítido propósito de prejudicar o curso das investigações.
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal decide que o Legislativo pode revogar prisões de parlamentares. E valida, mais de um ano depois, a anistia concedida pelo então presidente Temer, sob a forma de indulto de Natal, beneficiando sabe-se lá quantos condenados por corrupção. O brasileiro, que chegou a acreditar que a impunidade tinha sido banida do país, vê agora, indignado, que isso não passa de uma ilusão.