Os tempos não eram tranquilos, é importante reconhecer. Vivíamos o Brasil de 1965, o ano que se seguiu à tomada do poder pelos militares. Mas, como aconselha a canção “Argumento”, de Paulinho da Viola, procurávamos fazer como “um velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”. Era assim na redação de O Diário quando iniciei a minha trajetória como jornalista e conheci Esdras Leonor.
Esdras ocupava, no turno da tarde, uma das quatro máquinas de escrever na acanhada redação do jornal. Duas outras eram de uso exclusivo de Dalton Martins da Costa, o secretário, e de Paulo Maia, o subsecretário. Eu, repórter iniciante – “foca” como se dizia na época –, me apossei da máquina que restava e, ao lado de Esdras, permanecia por lá até o início da noite. Uma vez por semana eu saía mais cedo para, a bordo de um dos ônibus da Viação Alvorada, chegar à Câmara Municipal de Vila Velha e acompanhar o trabalho dos nobres edis.
Esdras era o colunista social, desfrutando de um enorme prestígio, tanto que sua coluna ocupava quase uma página inteira do jornal. Sua coluna, antes de noticiar os acontecimentos ligados à sociedade – festas, comemorações, idas e vindas das personalidades locais, etc – era iniciada com uma crônica de sua autoria. Essa crônica, durante muito tempo, ressaltou a beleza, a inteligência e a personalidade de Capitu, a personagem de Machado de Assis no romance “Dom Casmurro”, com tanta ênfase que fazia crer que Esdras se referia a alguém em especial. Nós, os colegas de redação, nunca conseguimos desvendar esse mistério.
Presenciei a migração de Esdras para o jornalismo político, ainda em O Diário, onde ele caprichava na redação dos textos mirando o exemplo de Carlos Castelo Branco, um dos mais brilhantes articulistas do jornalismo brasileiro que escrevia uma coluna na segunda página do prestigiado Jornal do Brasil.
O sucesso de Esdras foi reconhecido por Cariê Lindenberg que o convidou para se transferir para A Gazeta. Essa transferência marcou o início de um novo capítulo na história de A Gazeta, afastando a linha editorial dos interesses de qualquer partido político. Foi também nessa época que Esdras iniciou a sua trajetória como professor universitário.
Reencontrei Esdras no grupo “Os Legais” formado por jornalistas da velha guarda da imprensa capixaba que se reúne, uma vez por mês, para almoçar e recordar, com saudades e bom humor, os tempos das linotipos, da paginação em chumbo, dos exemplares de jornal cheirando a tinta, das primeiras rotativas, e dos clichês que reproduziam em zinco as fotos preto e branco. E, é claro, também – por que não? – tratar das questões dos novos tempos dos celulares, internet, redes sociais e inteligência artificial.
Dos integrantes de “Os Legais” sou o que chegou mais recentemente, logo que o perigo da pandemia desapareceu. Nesse período, assisti à partida de dois grandes amigos, Ronaldo Nascimento e Cacau Monjardim, e agora, na segunda-feira, o grupo perdeu Esdras Leonor. Esdras era presença assídua em nossos almoços enquanto o seu estado de saúde permitiu. Chamava a atenção a cortesia e a cordialidade que marcavam a sua participação nas conversas.
Invariavelmente, após os almoços de “Os Legais”, eu levava Esdras até o endereço da sua residência. Antes de se despedir, ele sempre entregava a quem estivesse no carro, impressa, uma mensagem positiva da sua igreja, a presbiteriana. E sua despedida era sempre encerrada com um “fique com Deus”.
A Esdras, só temos a agradecer pelo convívio sereno e companheiro que ele sempre nos brindou. E cabe a nós, por reciprocidade, dedicar a ele, nesta hora, a mesma despedida que ele sempre nos dedicou: fique com Deus, amigo!