Foi uma feliz coincidência Fernanda Torres ter sido premiada como a melhor atriz em filme dramático no Globo de Ouro pela sua participação em “Ainda estou aqui”, dois dias antes do 8 de janeiro, data em que, em 2023, uma multidão de vândalos, insuflada pelos mentores da frustrada tentativa de golpe de Estado, depredou os prédios dos três poderes em Brasília.
Os golpistas-depredadores do 8 de janeiro pediam intervenção militar e o filme recorda um dos muitos e brutais crimes dos governos militares (1964-1985): o desaparecimento e a morte do deputado Rubens Paiva, cujo corpo até hoje não foi encontrado.
Foi uma feliz coincidência porque os dois acontecimentos fazem parte de um mesmo contexto político. A história de Rubens Paiva leva a todos os que viveram os “anos de chumbo” a recordar (e as novas gerações a conhecer) as atrocidades cometidas pelo regime militar que, sob a justificativa de livrar o país da “ameaça do comunismo”, assumiu poderes totalitários e prendeu, torturou e matou centenas de brasileiros, sem que esses tivessem qualquer direito assegurado.
Era a época em que os partidos políticos foram extintos, o Congresso Nacional foi fechado, centenas de políticos tiveram o mandato cassado, magistrados foram afastados de suas funções, cidadãos tiveram os direitos políticos suspensos, os meios de comunicação foram censurados, e inúmeros funcionários públicos (inclusive juízes) foram demitidos sumariamente.
As garantias de direito das pessoas foram suspensas, inclusive o instituto do habeas-corpus que impede que uma pessoa seja presa sem o devido processo legal. Foi nesse ambiente que proliferaram os órgãos de repressão e tortura. Fernanda Torres, no filme de Walter Salles – baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva –, interpreta Eunice, a esposa de Rubens Paiva, deputado preso e assassinado nas dependências de um órgão de repressão do regime militar.
E o que se vê na história mais recente do Brasil? O crescimento da popularidade de um líder político (Bolsonaro) que defende abertamente o regime militar de 1964 e não esconde a sua admiração pelo Coronel Carlos Brilhante Ustra, chefe de um dos mais cruéis centros de repressão, o DOI-CODI do II Exército (São Paulo). Ustra tornou-se o primeiro militar brasileiro a ser condenado pela Justiça, em 2008, pela prática de sequestro e tortura durante o governo militar.
Bolsonaro, o defensor do regime militar, ao término do seu mandato como presidente, em 2022, tendo sido derrotado na sua tentativa de se reeleger, sustentou o discurso de que as eleições foram ilegítimas. Foi esse discurso que mobilizou os apoiadores de Bolsonaro que, depois de meses acampados em frente aos quartéis do Exército em várias capitais do país, participaram da marcha que culminou com a depredação dos prédios dos três poderes.
Como foi comprovado pelas investigações conduzidas pela Polícia Federal, a marcha visava a construção de um ambiente político propício para um golpe militar que só não se consumou porque não contou com a adesão da maior parte das Forças Armadas.
As prisões dos vândalos do 8 de janeiro e as investigações da Polícia Federal já resultaram na condenação de centenas de pessoas. E, também, na prisão de cinco militares – entre esses, o General Braga Netto, que foi candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro – e um agente da Polícia Federal.
O aprofundamento das investigações está demonstrando, cada vez mais, que o Brasil correu, há dois anos, o risco real de voltar a ser governado por um regime ditatorial, e que, por isso, não deve admitir qualquer tipo de anistia a todos os que participaram da tentativa de golpe.
Recente pesquisa da Quaest demonstra que 80% dos brasileiros reprovam os atos dos vândalos do 8 de janeiro. É a constatação de que nós, brasileiros, queremos viver na democracia, regime que assegura os direitos dos cidadãos. O “Ainda estou aqui”, ao escancarar uma das atrocidades da ditadura militar, se torna, no atual contexto político brasileiro, um hino em favor da nossa democracia e das nossas liberdades.
Que esse hino seja ouvido por todos nós brasileiros para que possamos repetir sempre: ditadura, nunca mais!