Eles estão a postos pra nos roubar a poesia. Sempre estiveram, desde que os sumérios escreveram o primeiro poema de amor que se tem conhecimento, embora deva haver um arqueólogo esperto prestes a descobrir versos mais remotos. Os ladrões da poesia não tem identidade certa, o rosto é coberto por máscaras, a fala passa por filtros que ocultam o timbre do ladino. Implacáveis, afanam a liberdade do olhar, empobrecem as rimas ricas.
Mal começou o ano e cadê o menino rubro-negro que brincava de bola comigo no campo de várzea? Pra que céu levaram seus sonhos? Onde estão os olhos de chispas azuladas e a ironia derramada de sofisticação do mestre Boechat? Acharam mais corpos em Brumadinho ou é só a dor que nunca será enterrada sob a lama? E Bibi, estrela maior, que solta minhas mãos assim que tento fechar a crônica.
A forma da tristeza se agiganta entre as garfadas do almoço e o jantar indigesto. Os demônios profanadores da poesia tomam conta, dão de comer ao azar nos fazendo mais precários. Recuso-me ao papel de cavaleiro do Apocalipse, o homem de capuz com a foice. A vida me chama ao tocar, mas manhãs, os pés no chão ou em canções do amor demais entoadas junto com o gesto da manteiga deslizando sobre o pão matinal.
Não me rendo aos anjos tortos a me puxar para o chão onde querem lanhar minha cara. Prossigo de cara limpa, embora cultive minhas sujeiras. Mas a poesia não! Não vão me roubar, alto lá. Nas mãos carrego um exemplar do Blue Sutil, novo livro do nosso Sérgio Blank, que esparge poesia feito perfume sobre meus olhos e, melhor, sem ardências. Uma lágrima cai distraída e azul como a íris do poeta.
A delicadeza de Blank é comovente (“tenho por hábito colecionar gentilezas recolhidas do cotidiano. Guardo no bolso da camisa um punhado de poemas para cada susto que a vida oferta”). Os sustos desta vida marvada, poeta, são compensados pelo afago das suas palavras, essas que, ao ler, me aprumam a coluna e faz erguer a espada contra os dragões lançando chamas sobre a poesia.