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Jace Theodoro

A Águia voou mais alto e deu lições de superação no Sambão

A Boa Vista deu provas do quanto se extraem lições de superação quando o barco está à deriva

Publicado em 28 de Fevereiro de 2019 às 19:27

Públicado em 

28 fev 2019 às 19:27
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro

Águia da Escola de Samba Independente de Boa Vista Crédito: Amarildo
Fechados os portões do Sambão do Povo, a folia das escolas de samba se recolhe entre as sobras de tnt, descansa o corpo pendurado nas ferragens do carro alegórico. Acabou e eu fiquei devendo a crônica que, anualmente, se derrama de amor nestas páginas. Não dei conta diante de tantos horrores espezinhando a alegria em 2019: do calor infernal ao inferno de Dante das notícias agourentas.
Com a espinhela no lugar, o cronista vem rimar com o sambista e antes do até breve - porque não sou homem de bye, bye, so long, farewell como o Guilherme Arantes - dar mais uma palavrinha. Atrasei a entrega do texto à espera do resultado dos desfiles das escolas de samba da Grande Vitória a afim de dar tratos à quentura da pauta pro nobre leitor.
Envelopes abertos, notas apuradas, habemus campeã: a Independente de Boa Vista. A escola de Cariacica ganha seu quinto título com sabor diferente. Incêndio no barracão, prejuízo financeiro, a possibilidade de não desfilar, tudo parecia conspirar contra o desejo de voo da Águia, símbolo da escola. Em outubro, o presidente e intérprete da Boa Vista, Emerson Xumbrega, me disse que não ia desfilar. Impossível, garantiu.
Felizmente, a garantia expirou e a escola recuperou o fôlego pra desfilar no Sambão do Povo e, mesmo desacreditada, morder com força o título. A Boa Vista correu por fora e sua comunidade deu provas do quanto se extraem lições de superação quando o barco está à deriva, sem chances de navegação. O barco não virou porque todos se uniram pra mantê-lo na linha do mar alto. Essa vitória nos serve não só pro carnaval, mas pra vida, eis o ensinamento.
E a Novo Império que por pouco não foi a vice-campeã, mas seu terceiro lugar de última hora em nada a desmerece. O enredo que homenageava as lutas das mulheres e se perfilava ao lado delas nas suas dores foi emocionante, uma bofetada no machismo e na opressão em forma de samba. Um desfile que desidratou o cronista tantas foram as lágrimas de comoção com o que foi mostrado na avenida.
Fica aqui, sambistas com asas nos pés e escolas guerreiras, o meu afeto e prova de amor pra essa festa imodesta.

Jace Theodoro

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