O noticiário desta semana foi tomado pelo suposto envolvimento de um capixaba no tráfico internacional de drogas, em que atuaria como mergulhador incumbido de prender cargas no casco de navios e depois retirá-las no porto de destino. Um brilhante trabalho de investigação da Polícia Federal, mas é preciso reconhecer: estão só enxugando um iceberg.
Para fazer uma prisão dessas e algumas apreensões, são centenas de policiais trabalhando durante muito tempo. Depois de toda essa despesa na conta da segurança pública, corta-se uma pequena conexão, mas o fluxo de substâncias ilícitas continua dando conta de toda a demanda dos consumidores. No mercado de varejo, não falta droga de espécie alguma por nem um minuto para o usuário final.
As drogas viajam em voos comerciais, aviões roubados, dentro e fora dos navios, ônibus e trem, submarinos. São transportadas no estômago das “mulas”, ou apenas nas suas costas, por fronteiras menos vigiadas. Passam por túneis. Enfim, elas escorrem entre os dedos das autoridades, por mais que estas se esforcem, pelas simples razões de que é muito fácil e lucrativo.
O Brasil tem quase 16 mil km de fronteira seca e 7.500 km de litoral. Se quisermos manter um posto de vigilância a cada 100 metros, 24 horas por dia, precisaremos de mais de 1 milhão de policiais só para isso. A alternativa, claro, é utilizar a inteligência e a investigação policial, mas o custo não é menor, nem a efetividade, maior. É um jogo de gato e rato, mas na versão “Tom e Jerry”.
Sem desmerecer o empenho e a competência da Polícia Federal ou de qualquer outra instituição encarregada dessa missão tão árdua, por esse caminho não ganharemos guerra nenhuma. Teremos manchetes chamativas, histórias legais para contar quando estivermos aposentados, mas nenhum resultado prático na redução do consumo de substâncias psicoativas.
Não que tenhamos qualquer outra sugestão melhor para o combate criminal. Já tentaram identificar e recuperar ativos financeiros dos traficantes, mas eles continuam cada vez mais ricos e o dinheiro arrecadado não paga o custo de arrecadação. Prisões em massa só servem para superlotar as prisões; pegar peixes maiores não tem esse inconveniente, mas o tempo já mostrou que ninguém é indispensável nesse lucrativo negócio de vender “felicidade” em pílulas venenosas.
Vamos deixar algo para reflexão: por que as pessoas continuam sendo apanhadas traficando em países nos quais isso pode dar pena de morte? Por uma razão muito simples: porque a lucratividade cresce mais que o risco. Além disso, traficante também não vive muito no Brasil. Sim: do ponto de vista estritamente racional, traficar na Indonésia é mais inteligente.