Prometemos destrinchar um pouco esse tema das facções e outras organizações criminosas, além de mostrar porque é fácil confundi-las com quadrilhas comuns do tráfico. Como nem todo mundo leu ou já esqueceu, a coluna de hoje falará algo que já foi discutido neste espaço.
Dá para ser criminoso solitário, mas esse pessoal percebeu que, em equipe, eram mais fortes. Então, desde sempre houve associação de pessoas para cometer violência contra os outros, mas esses grupos não passavam de um bandido enfileirado ao lado do outro.
Se algum era preso ou morto, o bando ficava mais fraco; se fosse preso o líder ou o responsável pelo planejamento, ou se muitos integrantes precisassem fugir, a quadrilha se espalhava ou, como se gosta de dizer, era desbaratada. Os criminosos soltos ainda eram perigosos, mas precisariam formar outra quadrilha e ficavam temporariamente neutralizados, mesmo sem serem presos.
Agora imaginemos um meliante que sabe estar sendo investigado. Ele pode ter a tentação de matar o policial responsável, mas seria uma péssima ideia, pois logo um enxame de colegas da vítima iria aparecer. Você pode matar um policial, mas não a polícia.
Uma instituição policial não é apenas grande, ela é muito mais que um monte de profissionais de segurança. Ela tem uma hierarquia interna, órgãos para solução de conflitos internos e punição dos desvios de conduta, mecanismos permanentes para recrutamento de novos membros etc.
São muitos policiais, porém com uma determinada organização interna que não apenas garante o seu funcionamento permanente, como também a continuidade de sua existência muito depois que os seus integrantes originais já não estão mais nela.
O crime é um fenômeno jurídico, mas também social. E a criminalidade organizada é um fato social totalmente diferente da formação de quadrilhas comuns, porque ela é capaz de sobreviver a quase qualquer ataque e durar por séculos, como é o caso da Cosa Nostra, organizações orientais etc.
É claro que a Igreja Católica de hoje não é a mesma instituição de dois mil anos atrás, mas ainda está aí, mostrando, aliás, outra característica de uma instituição feita para durar: a capacidade de se adaptar ao longo do tempo e do espaço.
Então uma organização criminosa não precisa ser uma quadrilha cinematográfica, com integrantes especialistas em informática, atiradores de elite, falsificadores perfeitos e coisas semelhantes. Seus integrantes podem até ser bem toscos, sem maiores habilidades e com inteligência limitada. O que importa é que sejam mais do que malfeitores agrupados, que tenham mecanismos internos de manutenção da organização como um todo, independentemente de cada intregrante.
O meliante é preso ou morto, mas a organização (instituição) continua de pé e funcionando como se nada houvesse acontecido. Uma observação importante: nem toda organização criminosa está no mesmo momento de maturidade e solidez; elas estão sempre se organizando, mais e mais.
É isso o que torna tão difícil enfrentar organizações criminosas: prisões e mesmo mortes dos criminosos não têm quase nenhum efeito e, principalmente, ele não é duradouro. As estratégias que a sociedade está acostumada a usar contra a criminalidade comum são totalmente ineficientes. Então outras abordagens são necessárias.
Continua na próxima semana.