Vão ficar para o final minhas explicações sobre por que o plano de Cesare Mori contra a Cosa Nostra não deu certo, embora a concepção estratégica fosse correta, e por que o grande experimento social de Nayib Bukele em El Salvador, mesmo que funcione, não pode ser simplesmente exportado.
Hoje vamos falar de uma abordagem bem mais promissora proposta pelo ex-policial federal e consultor Bruno Requião da Cunha, bacharel, mestre e doutor em Física e pós-doutor em Matemática, baseada na ciência de redes, um ramo interdisciplinar do conhecimento que, além das ciências exatas, bebe nas fontes da sociologia, da psicologia etc.
Recomento fortemente que leiam sua obra "Criminofísica – a ciência das interações criminais", que, aliás, é bem didático e acessível aos mortais. Mesmo assim, tentarei ser ainda mais sucinto e simples.
Organizações de qualquer tipo, inclusive as criminosas, podem ser comparadas a uma rede de pesca, que é formada por fios e nós. Os nós são os seus integrantes e os fios, as ligações entre eles. Só que, em uma rede criminosa, os nós e as ligações não são todos iguais. Existem ligações fracas, geralmente mais numerosas, e fortes, geralmente poucas. Existem criminosos com muitas ligações e outros com menos. Essas redes são inteiramente dependentes dos nós e das ligações, porém alguns são muito mais estruturais que outros.
A abordagem tanto de Cesare Mori quanto de Nayib Bukele se baseia na ideia de prender todo mundo. Ou seja, para acabar com uma organização criminosa, não pode ficar ninguém de fora. Bruno Requião, todavia, demonstra que é possível desmontar toda a rede neutralizando apenas 2 ou 3% dos nós, desde que sejam escolhidos exatamente aqueles que compõem o seu esqueleto. Os que ficarem livres deixarão de ser uma organização e sua periculosidade individual é incomparavelmente menor do que a da rede estruturada.
Essa abordagem já foi testada com muito sucesso no combate à pedofilia e outros casos, mas tem suas dificuldades, claro. É preciso muito trabalho de inteligência para escolher exatamente os alvos estratégicos. E não é só capturar os cabeças, os líderes, porque personagens muito abaixo na hierarquia podem ser muito mais fundacionais, como aqueles que fazem a contabilidade, por exemplo. Imagine um banco que, vítima de um hacker, ficasse sem acesso ao extrato de cada correntista: teria que fechar as portas imediatamente e simplesmente não poderia autorizar novas movimentações nem prestar contas das anteriores.
Também seria importante que as prisões se dessem mais ou menos simultaneamente. E notem que o autor fala em “neutralizar”, mas todos nós sabemos que a pura e simples prisão de um infrator não garante isso, ainda mais porque ele tem o direito legal de receber visitas e de ser atendido por seu advogado.
Tá. Essa estratégia não é uma varinha de condão, mas pode ser combinada a outras e, de qualquer forma, é muito mais executável na prática e muito mais barata do que tentar prender bandidos com uma rede de arrasto (desculpem o trocadilho), da qual sempre escapam os tubarões, ou seja, exatamente quem era importante tirar de circulação. E isso já é um spoiler de por que Cesari Mori se viu atrapalhado com seus 12 mil presos e só conseguiu condenar cerca de 800.
Continuamos na semana que vem.