No rescaldo da tragédia em Aracruz e de outro ataque a escola, menos grave, em Colatina, temos um pouco mais de informações confirmadas, mas o que ainda não sabemos continua muito mais importante do que aquilo que já foi averiguado. Enquanto isso, muita gente, na mídia, nas redes sociais e aplicativos de mensagens arriscou opiniões conclusivas, soluções cabais e quase todas extremamente simples ou, ao contrário, complexas demais. Parece que o desejo de opinar é inversamente proporcional ao tempo dedicado ao estudo e meditação sobre o tema, e a vontade de aparecer, bem maior que o de prevenir novas ocorrências.
Esses tiroteios em escolas ocorrem há décadas nos EUA e nem lá se sabe direito o que leva um jovem a tirar a vida de inúmeras pessoas, geralmente a esmo e sem motivo aparente. Não me atrevo, a partir de boatos que merecem, mas ainda não foram investigados, a afirmar que o caso de Aracruz tem a ver com neonazismo; muito menos parece razoável generalizar essa conclusão para todos os outros casos acontecidos no Brasil. Muito pior do que quem não sabe o caminho está aquele que pensa que sabe.
Também não faltaram “dicas” irrealistas para como proceder em tais situações. A verdade é que não se consegue manter as pessoas alertas e preparadas para todos os inúmeros riscos de baixa intensidade a que estamos expostos. Salvo o caso de uma epidemia ou de fatos muito comuns, não faz sentido esclarecer a população sobre como proceder diante de uma doença improvável; a maioria não vai se interessar e os poucos restantes logo vão esquecer.
O problema não são as dicas em si – embora muitas das que vi beiram o ridículo –, mas o fato de que as pessoas simplesmente não vão ficar treinando cotidianamente como se comportar diante de um franco atirador: isso não está inserido em seu cotidiano, não faz parte da sua vida, da sua percepção de riscos. É a mesma razão pela qual não sabemos direito o que fazer em caso de incêndio ou se o avião for cair, ou os cuidados iniciais recomendados para cada doença. É natural – e sábio – inteirar-se e se manter atento para as doenças que cada um realmente tem, para os perigos que cada um de nós, concretamente, enfrenta, concentrando-nos no que realmente importa.
Esses episódios precisam ser estudados a fundo, para que possamos definir medidas preventivas de elevada eficácia e custo compatível a serem adotadas em larga escala, muito provavelmente contando mais com os professores e o restante da comunidade acadêmica do que com ações policiais, embora já tenhamos, na semana passada, ressaltado o excelente resultado prático da Patrulha Escolar da PMES/Sedu, replicada em algumas guardas municipais.
E, ficou óbvio: já é difícil se certificar de que um policial está tomando todas as precauções necessárias com as suas armas, que dirá controlar milhões de cidadãos se armando em velocidade cada vez maior e sem nenhuma supervisão efetivamente possível por parte das autoridades públicas. Não, não é coincidência alguma que esse tipo de episódio ocorra quase exclusivamente no país mais armamentista do mundo. Essa é a única certeza que temos.