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Reflexão

A corrupção e a física quântica

Entre partículas e ondas, o comportamento da corrupção revela uma complexidade que desafia a visão simplista de crimes isolados e exige olhar sistêmico

Publicado em 12 de Outubro de 2025 às 03:00

Públicado em 

12 out 2025 às 03:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Não fiquei muito satisfeito com a explicação que dei sobre a minha teoria do crime organizado do colarinho branco. Acho que não ficarei enquanto não conseguir que um físico ou químico a elabore em termos técnicos, já que sei de física quântica apenas o que aprendi no antigo 2º grau e já esqueci boa parte. Mas vamos tentar.
Quando um cidadão esbarra com uma autoridade pública corrupta, pensa que se trata de um agente isolado. Mesmo quando a polícia identifica um grupo de corruptos e chama isso de organização, ela estava lidando apenas com uma célula criminosa e não percebeu que havia uma organização muito maior por trás de tudo aquilo. Isso ocorre porque se está tendo uma visão próxima demais e não se enxerga o todo. É o oposto do que acontece quando um automóvel bate contra o muro.
Empresas condenadas por corrupção no ES
Atos de corrupção parecem isolados, mas integram rede complexa que só é entendida observando o sistema por inteiro Crédito: Freepik
Tanto o automóvel quanto o muro são feitos de uma enorme quantidade de átomos. Só que os átomos são 99% de espaço vazio. Falei certo? Mais ou menos. A chamada eletrosfera (“órbita” dos elétrons) é 10 a 100 mil vezes maior que o seu núcleo. Quando nos ensinam Química, o professor mostra um desenho do átomo (modelo de Rutherford-Bohr) com bolas (elétrons) girando em torno do núcleo, composto por outras bolas unidas (prótons e nêutrons). O espaço entre o núcleo e os elétrons parece vazio. Fica fácil para o aluno imaginar e é bem parecido com o modelo do nosso sistema solar. Só que não é perfeitamente correto, porque os elétrons não giram em órbitas fixas, como os planetas, comportando-se mais como uma nuvem.
Durante a maior parte do século passado, reconhecemos que esses modelos (o modelo de Rutherford e, posteriormente, de Bohr) são parecidos demais com partículas pontuais para descrever o que realmente está ocorrendo no mundo quântico. Os elétrons ocupam níveis de energia discretos, mas isso não se traduz em órbitas semelhantes a planetas. Em vez disso, os elétrons de um átomo se comportam como ondas eletromagnéticas, não como partículas, e parecem mais uma nuvem difusa, aparentemente caótica, espalhada naquele espaço. É o que torna a matéria “maciça”; é por essa razão que o automóvel se amassa quando bate no muro. É, também, por isso que a maioria dos materiais não deixa a luz passar.
Quando se manda um fóton interagir com o elétron é que este passa a se comportar momentaneamente como partícula, não como onda. É quando ele ocupa um ponto específico no espaço e é possível localizá-lo.
Bem, as células da organização criminosa do colarinho branco são como as partículas subatômicas: vistas muito de perto e no momento da interação com o cidadão ou com a polícia, elas parecem autônomas e localizadas em um ponto específico da Administração pública, mas, na verdade, interagem umas com as outras, se fundem, se dividem, se aproximam e distanciam, fazendo parte de um corpo gigantesco que, exatamente por ser tão grande, não é percebido quando você olha a partícula muito de perto e no momento em que ela não está se comportando como onda eletromagnética.
Fui mais claro desta vez? Óbvio que não. Vou pedir ajuda aos universitários.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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