Neste mês de maio, a Ufes completa 65 anos de existência, pois foi criada em 1954, como universidade estadual, no governo de Jones Santos Neves, e federalizada em 1961, último ato do presidente Juscelino Kubistchek. A saga de sua criação, ou parte dela, está contada no vol. 33 da coleção “Escritos de Vitória”, criada por Adilson Vilaça em 1993 e patrocinada pela PMV. Nesse número especial, 33 autores fizeram seus relatos de memória, contos, crônicas, poema, no livro que foi lançado na abertura da VI Feira Literária Capixaba, encerrada, ontem, com grande participação de público, em seus cinco dias de realização.
Mais uma vez, a Ufes abre-se à comunidade como órgão de vanguarda nos movimentos culturais capixabas. Isso ocorreu em todas as épocas e, mesmo durante da ditadura militar, a Ufes teve em seus atores grandes momentos de resistência e de militância nas artes, na cultura e na política, com destacada atuação no teatro, no cinema, nas letras, na imprensa.
Desde a sua criação e, sobretudo a partir da federalização, a Ufes contribuiu para mudar o cenário capixaba e tem sido uma das principais responsáveis pelo progresso do Espírito Santo, a partir dos anos 1970, que transformou o Espírito Santo de um Estado agrícola e dependente da monocultura do café em um dos Estados mais desenvolvidos e industrializados do país. Em todos os setores da indústria, do comércio, de serviços, há profissionais formados na Ufes, atuando a partir de conhecimentos aí adquiridos.
Durante muito tempo, a Ufes foi, no Espírito Santo, a única universidade pública e gratuita, tendo formado milhares de profissionais, em sua maioria capixabas, para atuar na sociedade. Ainda continua sendo a única universidade federal pública e gratuita, mas esses dias podem estar contados pela política desastrosa do novo governo instalado a partir de janeiro deste ano.
Não é verdade a crítica descabida que se faz à universidade. Durante os 30 anos em que atuei na Ufes, nunca vi alunos nus ou drogados, como os divulgados pelo atual governo, com o objetivo de desmoralizar a universidade pública, para negar-lhe a verba a que tem direito para existir e fazer o trabalho de qualidade que sempre fez.
Ensino, pesquisa e extensão são os pilares da universidade pública, oferecendo à população hospitais de excelência, teatros, laboratórios, clínicas, museus, galerias de arte, cinemas, como nenhum outro órgão público o faz. Forças Armadas têm escolas, hospitais e toda uma infraestrutura que servem a elas mesmas. As universidades públicas brasileiras são, atualmente, o principal fator de mobilização e de ascensão social das classes mais pobres, pois, pela primeira vez em sua história, a maioria dos estudantes é de origem parda ou negra e provém das classes desfavorecidas.
A política de cotas mudou o cenário das universidades, antes a serviço das elites. Desmantelar a universidade pública só irá agravar o fosso social em nosso país.