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Religião

Os novos valores que marcam o cristianismo contemporâneo

O que vemos é um cristianismo baseado em discursos de ódio, de raiva, alimentadores de guerras, de violências, que promovem o armamento da sociedade, a ruptura com os princípios éticos e morais da empatia, da solidariedade, da justiça social e da verdade

Públicado em 

08 abr 2025 às 03:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Vivemos tempos estranhos na política e na religião. Já não é mais possível efetuar análises pautadas em um modelo de racionalidade a que nos acostumamos ao longo da história, fosse ela uma racionalidade de matriz filosófica, religiosa ou científica.
O discurso religioso de origem judaico-cristã, ainda que pautado em sistema diverso do sistema filosófico e científico, de alguma forma guardou nexo de harmonia com uma razoabilidade sustentada em sentidos, ainda que fossem eles transcendentais.
O texto bíblico, ainda quando divergente da ciência com seus pressupostos fundamentados na racionalidade, fosse ela platônica, fosse aristotélica, ou com base na ciência moderna, sempre esteve balizado em elementos discursivos carregados de sentidos, coesão e simetria.
Ainda quando houvesse críticas e discordâncias abissais, parecia haver uma relativa lógica no que se defendia, fosse fruto do conhecimento racional, fosse do conhecimento religioso, dogmático e valorativo. Estão distantes esses tempos.
O caos se instalou definitivamente nos discursos que são enunciados na religião e na política. Não é possível ao homem médio compreender os intercursos discursivos e os sentidos que lhe são atribuídos. A verdade se perdeu como propósito e como elemento fundamental do conhecimento humano.
Impossível encontrar qualquer tipo de coerência, consistência ou lógica no discurso que se anuncia, seja do púlpito, seja da tribuna, seja dos palanques, seja dos trios elétricos, seja nas mensagens escritas nas redes sociais.
A distopia discursiva parece ter alcançado o seu auge. Não importa mais o que se diz, sua consistência ou relação com a realidade. Entre o real e a fantasia não há qualquer exigência de conectividade.
Entre o que se declara e o que se faz pode ser absoluta a distância, já que ela não compromete a adesão desse ou daquele sujeito ou desse ou daquele grupo. Senão vejamos.
O cristianismo, principal matriz religiosa ocidental, difundiu-se tendo como base uma série de valores os quais foram considerados constitutivos do ethos cristão. O "amor a Deus sobre todas as coisas e ao outro como a si mesmo" serviu de diretriz fundante do pensamento cristão. A partir dele, estão todos os outros valores decorrentes e umbilicalmente vinculados.
O amor, virtude maior, mandamento por excelência, que nos une em essência ao Deus que é todo amor, é paciente, é bondoso, é solidário, não maltrata, não deseja o mal, não se alegra com a injustiça, não se ira facilmente, não busca os seus próprios interesses.
Segundo os preceitos bíblicos, quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.
O ódio provoca dissensão. Se alguém disser que ama a Deus, mas odeia ao seu irmão, é mentiroso. São muitos os preceitos e valores originados do cristianismo que estão, de forma radical, vinculados ao valor maior, que é o amor a Deus e ao próximo.
O que vemos, entretanto, na contemporaneidade, é um cristianismo baseado em discursos de ódio, de raiva, alimentadores de guerras, de violências, que promovem o armamento da sociedade, a ruptura com os princípios éticos e morais da empatia, da solidariedade, da justiça social e da verdade.
A extrema-direita capturou líderes religiosos inescrupulosos, comprometidos com seus próprios interesses, disseminadores de fake news, vendilhões do templo, falsos profetas da modernidade, descompromissados com a vida, com o planeta e com a justiça social.
Bíblia com terço, evangélicos ou católicos
Bíblia com terço Crédito: Shutterstock
Líderes políticos contemporâneos como Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria e de tradição calvinista; Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos e presbiteriano; Javier Milei, presidente da Argentina e católico; e Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, também católico — embora frequentemente participe de cultos evangélicos, seja casado com uma evangélica e tenha sido batizado nas águas do rio Jordão por um pastor evangélico —, são exemplos emblemáticos de figuras que capturaram a religião como mecanismo de convencimento e de influência sobre os religiosos na conquista do poder político. Esses líderes instrumentalizaram símbolos, discursos e práticas religiosas não como expressão genuína de fé, mas como estratégia de mobilização, manipulação e legitimação de seus projetos autoritários e excludentes.
Distanciados dos princípios do que se denomina fé cristã, transformaram os valores baseados no ideal do amor em valores baseados no ódio e na violência. Os heróis de parcela significativa dos cristãos modernos são homens que estupram, matam, mentem, roubam ou que defendem e idolatram homens que assim agiram no passado, em flagrante contradição com os ensinamentos de Cristo.
Os valores típicos do cristianismo — amor, compaixão, justiça, perdão, humildade, fé, paz e esperança — foram esquecidos por essas pessoas. Qual cristianismo, de fato, teremos no futuro? Será um cristianismo do qual Cristo se orgulhará ou sentirá vergonha e desprezo, tal qual teve pelos fariseus de sua época?

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

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