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EUA

Ciência sob ataque: retornaremos ao período das trevas?

O que Trump decidir lá atingirá a todos nós que estamos por aqui no que ele compreende como sendo a periferia do mundo. As intencionalidades do presidente americano são claras e transparentes

Públicado em 

25 mar 2025 às 03:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

A influência dos EUA no desenvolvimento científico mundial é de dimensão incalculável. Ainda não temos a exata magnitude dos riscos que corremos com os ataques que vem sendo feitos às universidades americanas, aos centros de pesquisa e a instituições parceiras espalhadas por todo o mundo.
O que Trump decidir lá atingirá a todos nós que estamos por aqui no que ele compreende como sendo a periferia do mundo. As intencionalidades do presidente americano são claras e transparentes. Não estão escamoteadas em um discurso politicamente correto, mas que, na prática, se contradiz. Ele se manifesta de modo límpido em decretos, ordens executivas e pressão política, e a mensagem é: vamos acabar com as universidades e com tudo o que elas têm de liberdade no processo epistêmico de pensar, diagnosticar, criticar e reconstruir o mundo a partir de novos pressupostos, novas teorias e novos constructos decorrentes das investigações que caracterizam a ciência moderna e pós-moderna.
As universidades, como centros do pensar crítico, criativo e estratégico no desenvolvimento humano, perdem o seu lugar de protagonismo nas transformações que nos são exigidas neste mundo complexo com interconexões impossíveis de serem avaliadas em seu caráter de “totalidade”, no sentido dialético do termo, fora desses espaços de investigação que se processam tanto nas ciências sociais, humanas, quanto nas naturais positivistas.
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos Donald Trump Crédito: Reprodução | The White House
Com as decisões de Trump, o que sobram são as interpretações parciais e carregadas de intencionalidades obscuras, de grupos comprometidos com interesses privados e não públicos. Ainda que a ciência não seja neutra, e ela de fato não é, sofrendo as pressões inerentes às disputas de campos ideológicos e políticos divergentes, ela abre espaço para a liberdade de pensamento e de crítica aos dogmas estabelecidos em quaisquer áreas do conhecimento que queiramos colocar em análise.
Ao decretar o fim do Departamento de Educação dos Estados Unidos, criado há mais de quatro décadas, o presidente americano aponta para uma intencionalidade de controle dos corpos e dos pensamentos dos cidadãos americanos, comprometendo, na raiz, a diversidade, a pluralidade e a igualdade de acesso ao ensino. A inclusão possível, realizada por um controle financeiro e regulatório, fica, radicalmente, comprometida.
Na esfera local, interna, não sabemos ainda como ficarão as políticas relacionadas ao apoio a estudantes carentes, tais como moradia, alimentação, esportes, empréstimos estudantis, entre outras, mas o certo é que a educação sai de um patamar de relevância para uma periferia em nível de importância na política americana.
A ditadura no campo da educação e o controle do pensamento crítico, criativo e divergente já se iniciaram. A liberdade de cátedra se encontra em extinção, a autonomia universitária perde o seu lugar no jogo de interesses, em razão da necessária sobrevivência. Há uma cultura do medo sendo gestada também nas universidades com a prisão de estudantes e a ameaça de perdas de recursos para sua sustentabilidade. Há uma nova política relacionada à discriminação de raça, gênero e classe, entre outras, sendo gestada e já sendo efetivada em alguns campos.
Uma das mais importantes universidades americanas, a Universidade Johns Hopkins, centro de pesquisa de abrangência internacional, com diversos convênios em todo o mundo, inclusive no Brasil, para a realização de pesquisas multicêntricas, já demitiu mais de 2 mil funcionários, com perdas significativas de financiamento, o que comprometerá a continuidade de pesquisas que se encontram em andamento em todo o mundo.
Pesquisas na área da saúde já começam a sofrer as consequências da redução de financiamento por parte do governo americano. O mesmo acontece em todas a áreas do conhecimento humano.
O certo é que estamos apenas no início das dores de um parto que se anuncia de risco e com graves consequências para todo o mundo. Não é apenas uma questão de disputa por primazia de ciência e inovação entre EUA e China, com ascensão de uma e queda de outra. É uma questão de retrocesso em nossos patamares civilizatórios e de caminhada rumo a um futuro cada vez mais comprometido com a democracia, com a justiça, com a ciência e com a inovação e desenvolvimento para todos com vistas à igualdade, liberdade, saúde e avanços que a capacidade ilimitada humana pode nos legar.
Nessa toada de retrocessos, em breve faremos o caminho de volta a um período de trevas, abrindo mão das luzes que iluminaram a caminhada do homem na terra, nos permitindo chegar a esse estágio de desenvolvimento que nos foi legado pela ciência e pela liberdade de pensar e investigar o mundo, transformando-o em um lugar melhor para todos e todas.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

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