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Saúde pública

Ministério da Saúde: 'Agora tem especialistas' é o possível sendo feito no SUS

O que precisamos neste momento é manter a atenção voltada para as questões indispensáveis à manutenção dos princípios do SUS, em especial aqueles que se relacionam ao controle social

Publicado em 03 de Junho de 2025 às 03:30

Públicado em 

03 jun 2025 às 03:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Lançado no último dia 30 de maio pelo Ministério da Saúde, o programa “Agora tem Especialistas” chegou causando um debate acalorado e provocando um aparente dissenso entre aqueles que defendem o programa e aqueles que o enquadram dentro do rol das medidas de ampliação da privatização da saúde, o que estaria em contraposição aos princípios norteadores do SUS.
O certo é que o programa é complexo e não pode ser avaliado de forma ingênua, superficial ou meramente pontual como quesito de enquadramento nesse ou naquele qualificador.
É de conhecimento público que a saúde sempre foi o grande foco das preocupações do atual presidente. A questão das intermináveis filas para cirurgias, consultas e exames especializados esteve desde o início do governo na pauta do presidente, tanto que a ministra Nísia Trindade, já no começo de seu mandato, tomou medidas importantes nesse sentido, tendo, inclusive, criado o Programa Nacional de Redução das Filas de Cirurgias Eletivas, Exames Complementares e Consultas Especializadas.
As negociações e pactuações foram estabelecidas com os governos estaduais (Conass) e municipais ( Conasems), no sentido de alcançar resultados rápidos com vistas a minimização do sofrimento que atinge milhares de brasileiros que se encontram desprotegidos desse tipo de assistência, colocando, inclusive, suas vidas em risco.
Foram muitas as medidas e o significativo o volume de recursos liberados. Diretrizes foram estabelecidas e novos programas implementados com vistas ao aperfeiçoamento do sistema.
Com o programa “Agora tem especialistas”, lançado no último dia 30 pelo ministro Padilha, a questão toma uma dimensão política ainda mais complexa com as críticas de que o governo Lula estaria abrindo mão de sua histórica defesa do SUS, submetendo-se à lógica do privado. A questão precisa ser vista, entretanto, sob outra ótica.
Algumas questões merecem destaque nessa análise e não podem ser excluídas do processo argumentativo daqueles que se posicionam contra ou a favor do Programa:
  1. A urgência na tomada de decisões e o drama e sofrimento que se abatem sobre milhares de pessoas que dependem exclusivamente do SUS, e que poderão ver seus quadros agravados ou impossibilitados de tratamento em razão da “perda de uma chance”, instituto jurídico a ser considerado,   impõem ao gestor público medidas que nem sempre tomaria em outras condições menos gravosas.
  2. As estratégias políticas utilizadas pelo congresso nacional e pelas forças de oposição que buscam imobilizar o governo, independentemente das trágicas consequências dessa tentativa criminosa e perversa de impedir que o governo torne efetiva suas promessas de campanha, têm restringido toda a qualquer possibilidade de que o governo implemente medidas eficazes que garantam que o Direito a Saúde e todos os demais direitos de cidadania sejam concretizados. 
  3. Sem qualquer espaço político em razão da Frente Ampla com que garantiu sua eleição e luta cotidiana para conseguir pequenas conquistas junto ao congresso nacional, o governo se viu premido para agir dentro de um projeto de redução de danos, a partir da ideia do que é historicamente possível e não do pensado e proposto em nossos ideais constitucionais e das Leis Orgânicas da Saúde,  baseados na transformação da utopia da Reforma Sanitária em uma experiência concreta de sua efetivação. 
  4. A rede privada  deve ao SUS um volume incalculável de recursos que dificilmente chegaria aos cofres públicos em razão das inúmeras medidas protelatórias judiciais ou administrativas. O programa não transfere recursos para os cofres da iniciativa privada em saúde. Ele troca dívidas por serviços.
  5. Parcela significativa dos serviços de saúde prestados pelo SUS, especialmente os de media e alta complexidade,  já são fornecidos por meio de contratos com o  privado.
  6. O SUS  possui um serviço de regulação potente e estruturado, o qual precisa, cada vez mais, se especializar, construindo diretrizes logísticas, de gestão e aprimoramento ético-jurídico. O certo é que o programa “Agora tem especialistas” precisará necessariamente se submeter a essa regulação.  
  7. O tempo cronológico para a ampliação de serviços públicos é incompatível com urgência imposta por aqueles que sofrem e morrem sem assistência. 
  8. A rede privada possui ociosidade que pode e deve ser utilizada nesse momento, sem que isso gere transferência de recursos públicos para o privado.
  9. O projeto tem caráter temporário, emergencial e deverá encerrar-se em 2030. 
Não é uma questão de defesa ou não do projeto. É uma questão humanitária que coloca o gestor em uma condição de responsabilidade pública que lhe exige tomar decisões que em condições normais de “temperatura e pressão” não tomaria.
Sistema Único de Saúde (SUS), hospital, unidade de saúde
Sistema Únido de Saúde (SUS) Crédito: Marcello Casal/Arquivo/Agência Brasil
São muitas as questões a serem analisadas, o que não possível neste curto espaço de um artigo de opinião. O que precisamos neste momento é manter a atenção voltada para as questões indispensáveis à manutenção dos princípios do SUS, em especial aqueles que se relacionam ao controle social.
Como defensora intransigente do SUS público, gratuito e universal, entendo que o programa é o que é possível, historicamente falando, com vistas à redução de danos e riscos à vida e à saúde da população brasileira.
Só um controle social firme, independente e comprometido com os princípios e diretrizes do SUS poderá garantir que os objetivos do projeto sejam alcançados.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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