Uma nova ordem mundial se impõe, transformando os modos de ser e de conviver na contemporaneidade. A violência, a intolerância, o ódio ao diferente, o desprezo pelos pobres e por todos em condição existencial de vulnerabilidade econômica e social se ampliam, colocando em risco os pilares fundamentais daquilo que, até então, considerávamos indispensável à manutenção de um padrão mínimo de respeito ao estágio civilizatório alcançado. Um padrão esse que foi fruto de muitas, diversificadas e dolorosas lutas, algumas delas sangrentas, que custaram vidas e sonhos.
A violência cresce enquanto se ampliam os movimentos políticos de ascensão da extrema direita no mundo, naturalizando condutas antes consideradas incompatíveis com a nossa condição de seres humanos capazes de pensar e não se deixar dominar pelos instintos mais animalescos que caracterizam parcela importante dos seres vivos não racionais.
O processo de animalização do humano é um constructo cultural que se encontra em movimento ascendente e que se manifesta nas condutas violentas que vão se naturalizando por meio de discursos de ódio, de desprezo, de desconsideração e repulsa, bem como de ações que se caracterizam pela intolerância e pela falta de empatia com o outro humano com o qual se relaciona.
A democracia se encontra em risco e com ela todas as conquistas de direitos humanos e fundamentais que tão caro nos custaram, tais como liberdade, autonomia, dignidade e tantos outros.
Todo o movimento de ruptura com a ordem anterior quase sempre começa de forma singela, passando despercebido, sem causar apreensão ou qualquer tipo de temor mais substancial. São pequenos movimentos, desalinhamentos das rotas traçadas e pactuadas.
São manifestações inicialmente avulsas, consideradas isoladas, características dos inconformismos com a ordem natural dos regramentos sociais, princípios, valores, ética e normativas jurídicas, que aos poucos vão se avolumando, tomando força, se capilarizando, ampliando o escopo inicial e saindo de um controle social até então capaz de manter a ordem ético jurídica validada socialmente.
Não estamos nos referindo aqui às ordens autoritárias, ditatoriais, religiosas ou políticas não alinhadas ao pensamento democrático. Nações e povos com essas características sempre existiram e continuam a resistir a todo e qualquer avanço civilizatório experimentado pela humanidade.
Estamos nos referindo às distopias recentes, que pipocam em várias partes do mundo e que se manifestam em discursos de ódio explícito, emanados de líderes de países antes democráticos e que agora parecem se vangloriar dos absurdos, contrassensos e disparates vociferados e reproduzidos no interior das instituições sejam ela públicas ou privadas, estatais ou não estatais, religiosas ou laicas.
Líderes com essas características ascendem em todas as partes do planeta, forjados e alavancados pelo avanço das tecnologias guiadas por elites econômicas cada vez mais centralizadoras dos recursos necessários à vida e à sobrevivência do planeta.
A sociedade, tornada impotente e mantida refém de discursos carregados de inverdades e perversidades, parece aceitar passivamente, e até sustentar, os próprios líderes que a desconsideram, ignoram, desprezam e manipulam.
O presidente dos EUA, Donald Trump, é, sem qualquer sombra de dúvidas, um dos mais importantes líderes desse movimento mundial que se caracteriza pela ascensão da extrema direita, colocando em risco real democracias antes consideradas consolidadas.
O ethos do movimento se evidencia em um conjunto de manifestações discursivas que se caracterizam pelo ódio sem medida e por ações claramente violadoras de todos os direitos conquistados.
Uma análise, por mais singela que seja, das ações de governos como o do ex-presidente brasileiro, Jair Messias Bolsonaro, que conduziu à morte milhares de brasileiros na pandemia do Covid-19 e continua sendo ovacionado por alguns; de Benjamin Netahyaru, que se regozija no massacre cruel de crianças, mulheres e civis em Gaza; e do presidente dos EUA, Donald Trump, que com sua ferocidade e absoluta inconsequência coloca em risco a ciência, a liberdade e a dignidade, nos permite compreender que nossa geração está assistindo, talvez, ao ocaso da democracia, colocando em risco o futuro do planeta e seus habitantes.