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Premiação

Fernanda Torres e Globo de Ouro: vence o Brasil, vence a democracia

Há um todo maior sendo reconhecido e se mostrando ao mundo, gritando aos quatro cantos do planeta que a ditadura militar brasileira existiu

Publicado em 06 de Janeiro de 2025 às 23:00

Públicado em 

06 jan 2025 às 23:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

A vitória de Fernanda Torres como melhor atriz no Globo de Ouro representa muito mais do que o reconhecimento de uma grande artista brasileira, primeira a ganhar um premio dessa magnitude. A conquista traz um gosto de esperança de que a verdade e a democracia prevalecem, ainda que os ataques a elas sejam constantes.
A vitória vai para muito além de Fernanda Torres que, com sua representação primorosa, foi capaz de sensibilizar os jurados mesmo concorrendo com atrizes do peso de Angelina Jolie, Nicole Kidman e outras de reconhecimento internacional.
Fernanda Torres não pode ser vista isoladamente, dissociada do filme, mesmo sendo uma atriz fantástica, forjada, desde a infância, pelo exemplo e convivência com a maior atriz brasileira, sua mãe Fernanda Montenegro. Há um todo sendo reconhecido e se mostrando ao mundo, gritando aos quatro cantos do planeta, que a ditadura militar brasileira existiu, foi horrível, perversa, cruenta, apesar de ocultada e minimizada por uma anistia que tanto mal causou a memória e à história do povo brasileiro.
Do diretor Walter Salles a cada um dos envolvidos, dos mais importantes atores ao mais singelo figurinista, o clima é de que o troféu é de todos, inclusive dos brasileiros que veem sua história e sua memória sendo preservadas, resistindo a todas as tentativas de negação e ocultamento da verdade.
Trazer à memória uma parte desse momento trágico da vida brasileira é mostrar resistência e força em uma época em que tantos parecem se encantar com o canto da sereia, se deixando envolver por ideologias que mascaram a verdade e distorcem as verdadeiras intencionalidades daqueles que querem continuar a gozar dos privilégios que o poder sem limites propicia.
A força e a coragem da mulher se mostram na representação que Fernanda Torres faz de Eunice Paiva, como exemplo e paradigma a todas as mulheres que cotidianamente sofrem a violência e a tirania em um país dominado por homens talhados em uma cultura de violência institucionalizada representada, de alguma forma, pelo poder militar que governou o país com mão de ferro, sem qualquer compromisso com o Estado de Direito e com a dignidade humana.
O filme e o prêmio vêm em boa hora quando os brasileiros acabam de ter conhecimento, a partir de fortes indícios, de que continuamos a correr riscos e de que um novo golpe poderia ter ocorrido nos levando a repetir a triste história de supressão de direitos e de implantação de um novo regime ditatorial no Brasil.
A cultura é o espaço de resistência do qual não podemos abrir mão. A memória que o filme nos traz precisa nos servir de lição, para que não incorramos, de novo, no mesmo erro de anistiar aqueles que intentaram contra o Estado Democrático de Direito.
O filme, que será assistido por muitos em razão do prêmio, certamente servirá para que os mais jovens, que não vivenciaram os horrores do regime militar brasileiro, saibam que regimes ditatoriais violam casas, corpos, desaparecem com pessoas sem que nenhuma justificativa ou informação precise ser dada aos familiares ou a sociedade.
Anistia é projeto que não pode prosperar no Brasil. Cada pessoa ou instituição anistiada é ninho de serpente esperando a hora certa para desferir o golpe.
Fernanda Torres ganha o Globo de Ouro 2025 de melhor atriz de Drama
Fernanda Torres ganha o Globo de Ouro 2025 de melhor atriz de Drama Crédito: Reuters
Que o prêmio de melhor atriz recebido por Fernanda Torres nos permita trazer a memória toda a dor, vergonha e sangue vivenciado por tantos, de forma a que nos coloquemos no lugar desses e na trincheira de uma luta que não se mostra fácil de ser enfrentada.
As ditaduras, tão ingenuamente defendidas por tantos e tão cinicamente por alguns, não respeitam nada nem ninguém, mas elas são sempre mais cruéis com pobres, negros, mulheres e todos que se arvoram o direito de discordar e manifestar seu pensamento.
Calar-se para sobreviver é da condição das ditaduras. Abrir mãos dos sonhos e da dignidade também. Lutar antes que se instalem é a única forma de continuar a gozar de paz e liberdade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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