Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Segurança

Estupros: o silêncio patriarcal das igrejas e do Congresso Nacional

Lideres religiosos que acobertam estupradores, que violam suas “ovelhas” e criminalizam as vítimas, precisam ser denunciados e responsabilizados criminalmente

Públicado em 

23 jul 2024 às 01:40
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Os números do estupro no Brasil são assustadores e reveladores de uma incomoda e trágica verdade. Poucos se importam com aquilo que acontece às ocultas, seja em casa, seja nas igrejas, especialmente se atingir meninas e mulheres. Segundo dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 6 minutos uma mulher foi estuprada no país em 2023, o que representa um crescimento de 6,5% em relação a 2022.
Cerca de 85% das mulheres estupradas são vítimas de familiares e conhecidos e 61,7% dentro de suas próprias casas, lugar onde deveriam estar protegidas, acolhidas e amadas. O patriarcado é violador da dignidade, provocador de mortes da alma e dos corpos.
Milhares de meninas e mulheres são estupradas pelo Brasil à fora todos os dias e isso não incomoda às igrejas e ao congresso. O tema não é tratado nos púlpitos nem no plenário do Congresso Nacional . Lideres religiosos cristãos, padres e pastores, que vociferam sobre o aborto, com todos os decibéis possíveis e imaginários, mantem-se em constrangedor, vergonhoso e imoral silêncio. Deputados e senadores seguem na mesma direção, com raras exceções.
A bancada da Bíblia, que apoiou despudoradamente o PL do estuprador, silencia sobre os inúmeros casos de estupros cometidos por pastores e lideres religiosos, recente e sistematicamente denunciados. São muitas e diversificadas as denúncias. O poder religioso se manifesta no controle dos corpos e das mentes de cristãos, em um sectarismo que avilta a inteligência e a dignidade dos fiéis.
Pastores afirmam, sem qualquer tipo de constrangimento, que as meninas e mulheres também são culpadas, dando margem a seus próprios estupros. Nessa perspectiva e visão intencionalmente distorcida da realidade, os “pobres” homens estupradores são vítimas do assédio de meninas de 10, 11, 12 , 13 anos. Eles não conseguem resistir às suas lascívias e acabam caindo, mas são “homens bons e íntegros” que foram levados a isso por mulheres (meninas), na visão deles, desavergonhadas e provocativas.
O assunto, quando levado aos pastores, normalmente pelas mães que descobrem que suas filhas são abusadas pelos próprios pais ou padrastos, é tratado sob a perspectiva do perdão e não da denúncia e da responsabilização dos criminosos. O tapete sempre pronto a abrigar as mazelas de famílias cristãs, sempre defensoras dos bons costumes.
Os estupradores, muitos deles também lideranças religiosas em suas comunidades, dizimistas “fiéis” muitas vezes, são abrigados e acolhidos pelas correntes protetoras do patriarcado, que acobertam violadores e abandonam e criminalizam as vítimas.
O discurso é sempre que a igreja precisa ser protegida e, seus líderes, representantes divinos na terra, não podem ser julgados pelos tribunais humanos, devendo ficar ao resguardo dos tribunais religiosos, sempre acobertadores dos deslizes dos homens e denunciadores das mulheres.
Os números que nos assuntam pela grandiosidade não chegam perto da triste realidade vivenciada por meninas e mulheres no decurso de suas vidas. Eles são sempre significativamente inferiores às estatísticas em razão da subnotificação característica dos casos de estupro e de violências contra as mulheres.
Mulher vítima de violência sexual
Mulher vítima de violência sexual Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O silêncio é sempre cúmplice, corréu, parceiro, compadre do estupro, que em sua maioria é continuado, perdurando durante anos enquanto a vulnerabilidade extrema das meninas não se manifesta como revolta, como casamentos precoces para se libertarem do julgo, como suicídio, como traumas emocionais que irão perdurar durante toda a vida, transformando a existência em um inferno que irá impactar também a prole e as próximas gerações.
Grande parte das igrejas que se beneficiam de isenção tributária, sem que atendam a nenhum dos requisitos que a justificariam, já que mais servem aos interesses privados de suas lideranças do que aos reais interesses da comunidade religiosa ou da sociedade, não resistiriam a uma CPI séria, conduzida fora dos grilhões do medo de perda de votos em eleições, administradas pelo cabresto da fé e pelo medo do inferno do qual afirmam possuir as chaves, condenando os desviantes de seus projetos de poder.
Lideres religiosos que acobertam estupradores, que violam suas “ovelhas” e criminalizam as vítimas, precisam ser denunciados e responsabilizados criminalmente, desnudando o submundo de uma religiosidade hipócrita e manipuladora da fé.
Lideres religiosos comprometidos com a verdade, com os valores do autêntico cristianismo, e eles existem e são muitos, precisam sair do lugar de conforto em que se encontram, puxando uma verdadeira cruzada evangélica de defesa da vida e da dignidade das mulheres, fazendo uma limpeza em seus arraiais e construindo as bases para uma sociedade mais justa e mais comprometida com a ética, com a verdade, com a dignidade de todos e todas.
A cultura do estupro, sustentada e validada no patriarcado, que não está apenas nas igrejas, mas que é também por elas mantida, precisa ser desmantelada, fissurada. A igreja, com sua voz profética, precisa ser aquela que denuncia, se interpõe e contrapõe ao discurso moralizante da sociedade mas validador das violações interna corporis.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Com Drauzio Varella, Multivix Med Summit 2026 debateu sobre o futuro da medicina no Brasil
Imagem de destaque
O conselho de Lula a Alexandre de Moraes no caso Master
Imagem de destaque
ES tem operação integrada para Festa da Penha e show do Guns N' Roses

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados