A história humana é pródiga em nos apresentar exemplos de homens bons que se deixaram atrair e envolver pelos laços traiçoeiros da fascinação provocada pelo poder e pelo dinheiro.
Pobre Milton Ribeiro, que de pastor presbiteriano, respeitado e amado por muitos de sua própria denominação religiosa, se vê agora humilhado, cabisbaixo e envergonhado, tendo que se justificar a cada nova postagem que descortina os acordos espúrios, naturalizados na prática política brasileira, mas que provocam estertores de morte nos evangélicos tradicionais.
Sua exoneração, feita, certamente, a contragosto, não muda em nada as graves consequências que terá que enfrentar a partir de agora. Sua associação, tolerância ou conivência com pastores envolvidos com cobranças de propinas em dinheiro, ouro, bíblias ou a falta de explicações justificáveis para elas ficarão ligadas para sempre à sua imagem de forma ainda mais grave do que a de um ministro da Educação incompetente, leniente e venal.
Discretos em suas manifestações públicas, contidos em seus cultos sempre muito ordeiros, acostumados a se vangloriar de sua condição de denominação equilibrada, com “aparente” equidistância dos conflitos e das disputas políticas, vinculados a uma forte tradição de educação de qualidade, os presbiterianos se veem agora envolvidos em um escândalo sem precedentes na história da denominação.
Suas lideranças, que deveriam, neste momento, se posicionar, como algumas denominações evangélicas já o fizeram, tem, incompreensivelmente, se calado, tentando preservar pessoas mais do que as instituições.
O ministro, como homem público que é, sabedor das graves consequências de seus atos, muitos deles, por si sós, já denunciadores das violações cometidas, independentemente de serem provadas judicialmente, deveria com grandeza tomar para si o ônus de seus deslizes, assumindo-os com humildade e evitando a exposição continuada e vexatória de uma denominação com a qual se comprometeu a cuidar e preservar.
Se seus atos foram cometidos de moto próprio, sem o conluio e o aval dos representantes maiores da instituição presbiteriana, deveriam ambos, ministro e lideranças da IPB- Igreja Presbiteriana do Brasil, se posicionarem, com urgência, a fim de estancar o sangramento lento e doloroso exposto em todas as mídias e redes sociais.
O ministro deve se posicionar assumindo como suas as falhas e possíveis desvios, penitenciando-se por aquilo que não há como negar. As lideranças da IPB, por sua vez, devem se manifestar marcando sua posição de integridade e discordância com os desvios cometidos.
Acolher as pessoas que se desviam do caminho e cometem o que o Direito afirma ser ilegal e a igreja entende como pecado é papel das instituições cristãs comprometidas com o evangelho.
Todavia, acobertar a ilegalidade ou desvios incompatíveis com a ética cristã e as normativas da denominação, silenciando e encobrindo o que causa incômodo, quando protagonizados por amigos mais chegados daqueles que comandam a igreja, ou que outrora foram e ainda são lideranças da denominação, é colocar em risco a credibilidade da própria igreja que se afirma ou se intenciona preservar.
Tendo se resguardado incólume, intacta e distante de todo tipo de espetáculo e balbúrdia por todos os 162 anos de sua existência no Brasil, guardando a sete chaves os problemas internos, a IPB se vê hoje em uma encruzilhada. Exposta ao escândalo, por erros cometidos por um de seus mais importantes líderes que se deixou abraçar, como muitos pastores o fizeram, pelos sonhos de poder, a instituição se vê em situação vexatória.
Na política, não há fidelidade. Os parceiros de ontem se distanciam e o farão sem qualquer pudor. A bancada evangélica, coparticipe dos projetos de poder que levaram o atual ocupante da cadeira de presidente ao centro de um desastre nacional, já se posicionou. Querem distância de toda e qualquer proximidade com quem foi ingênuo e incompetente o suficiente para se deixar pegar em desvios que eles consideram tão elementares.
Faltou experiência a Milton Ribeiro para fazer o que tantos fazem todos os dias na política nacional. Incompetente na gestão do Ministério da Educação, arvorou-se de grande articulador político, encantado com as benesses do poder.
Esqueceu as lições mais elementares sobre democracia, Estado laico, gestão pública, respeito às leis dos homens e de Deus.
Enamorou-se de si mesmo e de sua imagem estampada em bíblias produzidas com dinheiro público. Apadrinhou irmãos na fé, fechando os olhos para os desvios de recursos públicos.
Patrocinou com dinheiro público o incremento da fé cristã, descrente, talvez, do poder transformador do evangelho que, independente de dinheiro e de poder, foi capaz de se alastrar por todo o mundo.
Para além da lei e da justiça dos homens, fica, para o ministro do Evangelho Milton Ribeiro a tristeza da solidão e do desígnio do evangelho que encontramos em Mateus 18 versículo 7 “[...] AI DO HOMEM PELO QUAL VEM O ESCÂNDALO"
Se a Igreja Presbiteriana, tão afeita às censuras eclesiásticas, especialmente quando os “pecados” são públicos, nada fizer nesse caso, estará assumindo que possui pecadores de estimação e isso poderá lhe custar credibilidade e legitimidade.