A alegria e a esperança sempre caracterizaram a juventude. O corpo saudável, as festas alegres, a música vibrante, a liberdade recém-conquistada, os amores que surgem e que enchem a vida de frescor e leveza, o futuro, sonhado e projetado, quase sempre ao alcance das mãos, marcas características da transição do mundo infantil para o mundo adulto, se colocaram no imaginário social como uma realidade.
Ainda que entremeados das naturais frustrações e impossibilidades inerentes à construção da história, a visão do futuro sempre esteve, de alguma forma, para os jovens marcada por desafios que se mostravam capazes de tirá-los do imobilismo e da desesperança diante das dificuldades. Agora não.
As evidências demonstram que essa realidade mudou de forma radical. Uma transição epidemiológica se materializou. A depressão, doença antes relacionada de forma mais frequente à maturidade, hoje faz parte da realidade de toda uma geração que não mais esconde os dramas emocionais que vivencia.
A dor de existir é relatada e compartilhada, socializada entre os amigos e familiares, ainda que continue representando um tabu carregado de discriminações e alijamentos.
O aumento do número de jovens com depressão, que não suportam mais conviver com a dor de existir e com a falta de perspectiva de futuro, é bem superior ao que imaginamos.
Na roda viva em que vivemos e no turbilhão de atividades que nos estão propostas, como modo de ser no mundo hoje, não percebemos que há toda uma geração de jovens com o futuro comprometido diante da impossibilidade que sentem de encontrar sentido, ânimo e potência para agir dentro de toda uma conjuntura que lhes parece desfavorável e inóspita.
A dor de existir parece, a muitos, maior do que a energia necessária para suportá-la e caminhar pavimentando a estrada para a construção do futuro. Jovens, ao nosso lado, aos milhares, estão fechados em suas angústias e aflições. Perderam o sentido da vida e não se enxergam mais na história. Cogitam partir como forma de interromper o processo doloroso, insuportável que estão vivenciando.
As estatísticas mostram que a taxa de suicídios entre os jovens cresceu no Brasil, da mesma forma que crescem os números de autolesões. Segundo resultados divulgados em artigo publicado pela The Lancet Regional Health – Américas, a taxa de suicídios entre os jovens no Brasil cresceu 6% ao ano, entre 2011 e 2022 e as taxas de notificação de autolesões entre jovens de 10 a 24 anos cresceu 29% ao ano.
Como em todas as estatísticas relacionadas a temas tabus, que envolvem discriminações, os números são subdimensionados. As automutilações, de um modo geral, não são objeto de intervenção que exija registro nas bases de dados da saúde ou da segurança. São tratadas internamente, e escondidas, muitas vezes, em razão do constrangimento que trazem para a própria pessoa e para seus familiares.
São múltiplos os fatores e ainda não estudados devidamente. Não há politicas públicas disponíveis e com capacidade teórica, metodológica, com aparelhamento adequado e capaz de acolher e direcionar aqueles que enfrentam a dor de existir em si, ou em seus familiares, em alguma dimensão.
As famílias se sentem perdidas pela falta de orientação e direcionamento acerca das políticas possíveis de intervenção. As políticas públicas são não apenas ineficazes, mas inexistentes. O problema é dramático. Mesmo pessoas com condições socioeconômicas favoráveis se sentem perdidas em razão da falta de preparação técnica de profissionais em condições de prestar assistência que considere a complexidade do problema.
Não basta, nesses casos, uma intervenção meramente medicamentosa, apesar de indispensável. São fatores de naturezas muito diferentes, mas que se interconectam. Fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais e econômicos, dentre outros, estão envolvidos no problema.
A falta de profissionais com formação especifica para o enfrentamento do problema é algo que precisamos admitir. Na rede pública, faltam médicos, psicólogos, enfermeiros e tantos outros profissionais imprescindíveis ao acompanhamento. Não é um questão de uma ou duas consultas. É acompanhamento contínuo e sistemático, feito por profissionais especializados.
Não há, por exemplo, psiquiatras em quantidade suficiente no setor público. A demora é de meses para agendar uma consulta e, na maioria das vezes, ela chega quando não há mais tempo para a intervenção.
No privado, planos de saúde têm reduzido número de profissionais disponíveis. Mesmo para aqueles que possuem algum recurso para os atendimentos em consultórios particulares, a dificuldade de agendamento é enorme e os preços são incompatíveis com as condições econômicas daqueles que sofrem.
O uso abusivo de álcool e outras drogas, privação de sono, solidão, uso indiscriminado de redes sociais, exigência de padrão de sucesso, de beleza e de felicidade incompatíveis com o mundo real, mas naturalizado nas redes sociais, são alguns dos elementos envolvidos.
Famílias inteiras, as mães em especial, estão sofrendo em um processo de angústia e dor que as leva a pensar, solitariamente nos caminhos possíveis para proteger seus filhos.
Os sonhos interrompidos e o futuro comprometido afetam a vida boa a que todos almejamos. A solidariedade e as redes de apoio são a condição única de sobrevivência para tantos que sofrem e que desejam superar esses momentos difíceis. Momentos que podem constituir em definitivos para alguns que não conseguirem encontrar a sustentação necessária a tempo de impedir o fim.