Os cristãos evangélicos são hoje, talvez, o único grupo com alto grau de coesão a manter-se na defesa inconteste, cega, insana e alucinada do presidente Jair Bolsonaro, repetindo, irrefletidamente os fiéis e convenientemente as lideranças, suas bravatas inconsequentes, violentas, radicais e antidemocráticas.
Muitos que se dedicaram nos três últimos anos ao exercício cotidiano de estimular ataques aos divergentes, disseminando mentiras e provocando rupturas entre pessoas que antes se relacionavam civilizadamente ou que até mesmo conviviam de forma amorosa, têm abandonado o barco.
Seja por conveniência, para evitar afundar com um barco que dá sinais evidentes de que começa a fazer água e no qual permaneciam apenas para o alcance de seus próprios interesses, sem qualquer adesão real aos seus princípios, seja por terem acordado de um sonho no qual se envolveram crédulos e ingênuos, cooptados por um discurso carregado de dissimulado moralismo e falsas promessas, o certo é que a popularidade do atual presidente começa a despencar a olhos vistos,
A pergunta que muitos se fazem é porque os cristão evangélicos permanecem apoiando o atual governo mesmo diante do escancarado protótipo anticristão, baseado em uma política de ódio e de violência, absolutamente incompatível com o arquétipo defendido pelo cristianismo, todo ele baseado na ideia do amor como marca por excelência do cristão.
A Bíblia é pródiga em textos que nos apontam o amor como sendo a única arma apropriada e legítima a ser utilizada por aqueles que se dizem seguidores do Cristo. Elo fundamental entre os homens e destes com Deus, o amor deve ser vivenciado de forma incondicional não devendo estar dependente do amor recebido.
Na perspectiva da Bíblia, única regra de fé e de conduta a ser seguida pelos cristãos, o amor é uma decisão unilateral, que tomamos independentemente da forma como somos tratados, acolhidos ou amados. Amar, na perspectiva divina, por mais que possa nos parecer absurdo, é sentimento incondicional, radical, a ser vivenciado cotidianamente.
O texto de I Corintíos 13 ouvido repetidas vezes ao longo da vida daqueles que frequentam igrejas dominicalmente, ou até mesmo eventualmente, é de que o amor é fundamentalmente paciente, bondoso e não invejoso. Além disso, o amor não é soberbo, arrogante e leviano. Ele não é precipitado, imprudente, irresponsável, inconstante. Também não se comporta com indecência. Não se irrita e não busca os seus próprios interesses. Não fosse tudo isso, o amor não é injusto, hipócrita e mentiroso.
Ficássemos apenas nesse pequeno trecho bíblico e nos esquecêssemos de todos os outros capítulos e versículos que tratam sobre o amor, constataríamos o total antogonismo entre o cristianismo e o bolsonarismo.
A proposta política de Jair Bolsonaro, desde antes mesmo de sua eleição e posse como presidente da República, sempre foi clara e objetiva no sentido daquilo que defendia. As pessoas não foram enganadas. Optaram por uma política baseada no ódio, na violência, no fomento à desigualdade, na injustiça, na arrogância, na leviandade, na indecência, na mentira, no engodo, nas fake news, enfim, em uma política de morte e de desrespeito à dignidade humana.
Optaram pelos fuzis em vez da comida. Pelo escárnio ao invés do respeito. Pela ditadura ao invés da democracia. Pelo ódio ao invés do amor. Pela violência contra à mulher e aos mais vulneráveis ao invés da igualdade. Pelos ricos ao invés dos pobres. Pela desesperança ao invés da esperança e da possibilidade de sonhar com o futuro.
Os líderes espirituais evangélicos que conduziram o povo para longe da perspectiva do autêntico Deus amoroso e os têm feito caminhar por caminhos de morte e não de vida, de ignorância e não de sabedoria, de submissão ao mal e não ao bem, haverão de ser envergonhados, humilhados e responsabilizados por seus feitos.
Passarão à história da mesma forma que os pastores que apoiaram Hitler na Alemanha nazista e conduziram cinco milhões de judeus ao extermínio.
As razões que os têm levado por caminhos distantes e contrários aos ditames do cristianismo autêntico — antagônico às propostas bolsonaristas de culto aos instrumentos de destruição e morte, à mentira e ao desprezo pela criação máxima do Deus que dizem professar — devem lhes pesar de alguma forma.
Na consciência, na vergonha pública, no registro histórico de suas ignorantes e perversas escolhas, no desprezo social, enfim, pelas consequências jurídicas de sua opção pelo poder, pela riqueza obtida de forma injusta, censurável e ilícita, nada passará incólume, despercebido, oculto.
Talvez, quem sabe, a alguns, venha a pesar a tristeza futura, quando conscientes constatarem que os erros cometidos estão no campo daquilo que biblicamente lhes foi apontado como pecados cometidos contra Deus.
Incontestável, portanto, a incompatibilidade, a priori, entre o cristianismo e o bolsonarismo. A hipócrita defesa inconteste do presidente por parte dos líderes evangélicos tem uma razão de ser, e ela, seguramente, não tem origem no campo da espiritualidade. Ela está vinculada ao campo dos interesses ilegítimos ou da ignorância que nos faz, a todos, corar de vergonha.
Violência e ódio não podem ser feitos em nome de Deus.