Há alguns dias, durante viagem oficial à Etiópia, o presidente Lula afirmou: "O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu: quando o Hitler resolveu matar os judeus". A fala foi mal interpretada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu e, na sequência, Lula foi considerado persona non grata naquele país.
Apesar de todo o burburinho criado, em nenhum momento Lula falou a palavra “Holocausto”, muito embora tenha aludido ao fato histórico. O episódio foi usado, politicamente, pelo governo israelense, como se o presidente brasileiro houvesse menosprezado ou desdenhado da memória dos milhões de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência assassinados, sistematicamente, durante o regime nazista de Adolf Hitler, na Alemanha.
A propósito, fatos históricos, por mais pesados e repugnantes que sejam, podem ser citados, desde que, com o devido respeito. A memória histórica é fator relevante para evitar que absurdos como o nazismo, o Holocausto, o regime escravagista e a matança dos povos indígenas, dentre outros, se repitam.
Na Alemanha, em 1996, o dia da libertação, 27 de janeiro, se tornou o dia oficial em memória às vítimas do nazismo, por iniciativa do então presidente alemão, Roman Herzog. Entre os alemães, parcela significativa, senão, ampla maioria, dá grande importância à manutenção da memória do Holocausto.
Inclusive, para afastar de vez a ideia de que a fala de Lula foi antissemita, é bom relembrar que o Brasil foi um dos países que participaram da criação do Estado israelense, em 1948. Desde então, Lula foi o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar o país (2010). Quando dos atentados terroristas do Hamas, em outubro passado, o Brasil foi uma das primeiras nações a condenarem a ação terrorista.
Reitere-se que, segundo as regras do direito internacional, há o direito de repelir injusta agressão. Entretanto, o exercício do direito de defesa, por qualquer das partes envolvidas, há de respeitar as regras internacionais, sobretudo no que diz respeito aos direitos humanitários.
A Convenção de Genebra, assim como considera crime contra a humanidade o sequestro de civis (cometidos pelo Hamas), também trata como crime os “campos de concentração” e o “apartheid” (imposto por Israel sobre a Faixa de Gaza).
Não se pode deixar de constatar que Israel tem se excedido no uso da força, tanto é que, de uns tempos para cá, até mesmo os Estados Unidos, principal aliado e financiador do estado israelita, tem pressionado por maior cautela e por um cessar-fogo.
Entre os mortos, principalmente do lado palestino, muitas crianças e mulheres. Gaza, por força de Israel, tornou-se um verdadeiro campo de concentração. Quem está lá não pode sair e não tem acesso a condições mínimas de uma vida digna. A caçada ao Hamas não pode se dar à custa da vida e da privação de recursos básicos e da liberdade do povo palestino. Os terroristas não são mulheres, crianças ou pessoas em leitos hospitalares.