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Educação

Enem: críticas de parlamentares ao exame são tentativa de censura

Questões foram produzidas por especialistas com as devidas qualificações técnicas e sem qualquer vinculação político-partidária

Públicado em 

10 nov 2023 às 00:25
Caio Neri

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Caio Neri

Nesta semana, políticos conservadores, principalmente aqueles associados ao agronegócio, criticaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e pediram a anulação de três questões porque, segundo eles, as perguntas teriam sido mal formuladas, por conterem, em tese, aspectos ideológicos. Não é dado aleatório, mas trata-se do primeiro Enem nesta gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As questões que irritaram os políticos de direita referiam-se ao desmatamento da Amazônia, ao avanço do agronegócio no bioma do cerrado brasileiro e, por fim, os avanços tecnológicos. A despeito da irresignação, ela é indevida, haja vista que as questões são compatíveis com os fatos e a ciência. 
Ademais, se não bastasse, elas foram produzidas por especialistas com as devidas qualificações técnicas e sem qualquer vinculação político-partidária. A esse respeito, a propósito, os dados oficiais divulgados recentemente apontam que a maioria expressiva das perguntas foram elaboradas ainda durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Falando nele, é bom lembrar que Bolsonaro chegou a dizer, logo no início de sua gestão, que as questões do Enem “começam agora a ter a cara do governo”. O então ministro da Educação Milton Ribeiro enfatizava que questões de “determinados guetos” não deveriam aparecer no Enem. E é justamente essa que parece ser a vontade dos conservadores: censurar temas com que simplesmente não concordam.
Falas tão explícitas de interferência no conteúdo do Enem jamais chegaram a ser feitas pelo atual governo. Porém, aqueles que não concordam que temas que foram abordados, por deles discordarem, simplesmente querem que apenas prevaleça o que lhes agradar. Isso é nada mais que uma tentativa de censura fantasiada de preocupação com uma “escola sem partido”, em continuidade aos movimentos negacionistas que ganharam força há algum tempo.
O Enem foi criado em 1998, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, para avaliar o desempenho escolar dos estudantes ao término da educação básica. Desde 2009, o exame vem sendo utilizado como mecanismo de acesso a diversas instituições de ensino superior.
Assim, fica claro que o Enem não é de um governo nem pertence a um ou outro grupo político-ideológico. Trata-se de um mecanismo de Estado, por isso são totalmente indevidas quaisquer intervenções ideológicas na prova, principalmente por políticos sem qualquer formação técnica nas áreas de conhecimentos cobrados no exame.
Gustavo Gayer (PL-GO) está entre parlamentares que reclamaram de 'questões ideológicas' na prova do Enem
Gustavo Gayer (PL-GO) está entre parlamentares que reclamaram de 'questões ideológicas' na prova do Enem Crédito: Reprodução/TV Câmara
Fica claro que aqueles que defendem a dita “escola sem partido”, a bem da verdade, não querem uma escola sem partido, mas uma escola com seu partido, no caso, a extrema-direita. Como se a escola fosse obrigada a adotar um ou outro pensamento ideológico, em vez de ter a liberdade de cátedra que a docência clama.
Confunde-se a educação familiar com a educação escolar. O “escola sem partido” é uma falácia contemporânea como estratégia de fuga de debates sensíveis e que a extrema-direita associa, erroneamente, à esquerda ou ao comunismo, tais como: direitos humanos, preocupação com um meio ambiente equilibrado, igualdade entre homens e mulheres, respeito e tolerância à diversidade, enfim, tudo que diga respeito à verdadeira civilidade.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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