Nesta semana, políticos conservadores, principalmente aqueles associados ao agronegócio, criticaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e pediram a anulação de três questões porque, segundo eles, as perguntas teriam sido mal formuladas, por conterem, em tese, aspectos ideológicos. Não é dado aleatório, mas trata-se do primeiro Enem nesta gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As questões que irritaram os políticos de direita referiam-se ao desmatamento da Amazônia, ao avanço do agronegócio no bioma do cerrado brasileiro e, por fim, os avanços tecnológicos. A despeito da irresignação, ela é indevida, haja vista que as questões são compatíveis com os fatos e a ciência.
Ademais, se não bastasse, elas foram produzidas por especialistas com as devidas qualificações técnicas e sem qualquer vinculação político-partidária. A esse respeito, a propósito, os dados oficiais divulgados recentemente apontam que a maioria expressiva das perguntas foram elaboradas ainda durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Falando nele, é bom lembrar que Bolsonaro chegou a dizer, logo no início de sua gestão, que as questões do Enem “começam agora a ter a cara do governo”. O então ministro da Educação Milton Ribeiro enfatizava que questões de “determinados guetos” não deveriam aparecer no Enem. E é justamente essa que parece ser a vontade dos conservadores: censurar temas com que simplesmente não concordam.
Falas tão explícitas de interferência no conteúdo do Enem jamais chegaram a ser feitas pelo atual governo. Porém, aqueles que não concordam que temas que foram abordados, por deles discordarem, simplesmente querem que apenas prevaleça o que lhes agradar. Isso é nada mais que uma tentativa de censura fantasiada de preocupação com uma “escola sem partido”, em continuidade aos movimentos negacionistas que ganharam força há algum tempo.
O Enem foi criado em 1998, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, para avaliar o desempenho escolar dos estudantes ao término da educação básica. Desde 2009, o exame vem sendo utilizado como mecanismo de acesso a diversas instituições de ensino superior.
Assim, fica claro que o Enem não é de um governo nem pertence a um ou outro grupo político-ideológico. Trata-se de um mecanismo de Estado, por isso são totalmente indevidas quaisquer intervenções ideológicas na prova, principalmente por políticos sem qualquer formação técnica nas áreas de conhecimentos cobrados no exame.
Fica claro que aqueles que defendem a dita “escola sem partido”, a bem da verdade, não querem uma escola sem partido, mas uma escola com seu partido, no caso, a extrema-direita. Como se a escola fosse obrigada a adotar um ou outro pensamento ideológico, em vez de ter a liberdade de cátedra que a docência clama.
Confunde-se a educação familiar com a educação escolar. O “escola sem partido” é uma falácia contemporânea como estratégia de fuga de debates sensíveis e que a extrema-direita associa, erroneamente, à esquerda ou ao comunismo, tais como: direitos humanos, preocupação com um meio ambiente equilibrado, igualdade entre homens e mulheres, respeito e tolerância à diversidade, enfim, tudo que diga respeito à verdadeira civilidade.