O primeiro cientista político a pensar mais detidamente sobre a tolerância foi John Lock em sua famosa (Primeira) Carta acerca da Tolerância, como reação às Guerras Religiosas que assolaram a Europa nos séculos XVI e XVII, principalmente, em razão da Reforma Protestante e da separação que se dava entre Igreja e Estado.
Em sua carta, Lock alerta que: “A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara.”
Para John Lock era inevitável que cristãos se reconciliassem e que, mesmo nos Estados onde se governava em co-participação com a Igreja Católica, cristãos reformados e ortodoxos fossem tolerados. Assim, outras religiões cristãs deveriam ser toleradas em nome, mesmo, do próprio ensinamento contido no Evangelho de Jesus.
Tolerância, de acordo com a Carta de Lock, seria aquela exercida pelo Estado em relação a seus cidadãos, ou seja, uma espécie de tolerância vertical, de cima para baixo, que poderia ser revogada pelo soberano a qualquer momento. Não se falava ainda em tolerância horizontal, como o dever de respeitar toda e qualquer religião (até mesmo a não-religião dos ateus) em nível de relacionamentos pessoais.
Lendo Lock atualmente, indagamo-nos sobre a sua atualidade, se a complexidade do mundo não nos faz necessitar de algo além da mera tolerância vertical.
Quem nunca ouviu alguém dizendo que queria mais do que simplesmente ser tolerado por sua forma de viver, por suas opiniões políticas, por sua identidade de gênero ou mesmo por sua religião? De fato, parece-nos que não basta mais só tolerar, é preciso reconhecer no outro uma complexidade que vai além do nosso entendimento. Há uma diversidade que nos diferencia e que nos une somente em humanidade.
Quando digo que tolero algo em alguém é porque aceito a sua posição ou a sua opinião. Mas, longe de mim, não a faço minha nem me abro a mudar minha opinião em razão da dele ou da vivência negativa que pode ter levado aquela pessoa a agir de uma forma ou ter uma opinião diversa da minha.
Por isso é que queremos mais do que a simples tolerância vertical, queremos reconhecimento das nossas diversidades, das nossas opiniões, do nosso modo de ver a vida e de vivê-la.
Reconhecimento vai além do aceitar e tolerar, exige o agir no lugar do outro, indagando-se como seria estar naquela posição e não na minha. E, mesmo sem conseguir estar na posição do outro completamente, reconhecer a ele o direito de ser e desenvolver sua personalidade da forma que lhe parecer melhor naquele momento.
Talvez seja hora, então, de dar um passo além, mais do que tolerar: vamos reconhecer as diferenças e deixar que elas se incorporem ao nosso dia a dia, à nossa sociedade que vive em constante mudança, para que possamos integrar a ela culturas novas, distintas das nossas.