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Livro

"Positividade tóxica": as armadilhas da psicologia positiva

A alienação está levando a um individualismo perverso de pessoas que vivem em suas bolhas sociais, sem considerar as dores das outras pessoas simplesmente porque não querem trazer qualquer negatividade a sua esfera de contatos

Publicado em 20 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

20 abr 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Emoji da felicidade: sociedade atual exige que todos estejam bem o tempo todo
Emoji da felicidade: sociedade atual exige que todos estejam bem o tempo todo Crédito: Pixabay
“O senhor foi diagnosticado com câncer terminal”, disse o médico. “Uhuu! Agora posso me concentrar em coisas boas que vivi e com o meu exemplo de vida inspirar a vida de outras pessoas”, respondeu o paciente, um otimista incurável. Esse diálogo fictício demonstra até que ponto o absurdo de se defender uma psicologia positiva (ou da felicidade) pode ir. A falta de rigor científico e um déficit moral são duas das quatro críticas mais importantes que são feitas a essa corrente da filosofia no livro “Happycracia: Fabricando cidadãos felizes”, de Edgar Cabanas e Eva Illouz.
Os dois autores trazem outras duas críticas à psicologia da felicidade: a sociológica e a fenomenológica. Mas antes de adentrarmos nas críticas, importante é entender o que a psicologia da felicidade é e quando surgiu. A ideia surge no início da década de 2000 com o objetivo de definir e mensurar a felicidade, que “deixa de ser um conceito nebuloso, um designo utópico ou um luxo inacessível”.
Foi assim que a busca da felicidade se tornou um assunto com abordagem científica, porém por meio de uma ciência cheia de promessas ilusórias de realizações pessoais e aprimoramento social. Na prática, somente pessoas com “alto nível de inteligência emocional, independência, autoestima, otimismo, resiliência e motivação que expressariam altos níveis de felicidade”, mas isso tudo (dizem os seus adeptos) é alcançável com muito esforço e o treinamento adequado.
Nasce daí, então, uma indústria que visa promover a felicidade, dando armas ao sujeito contemporâneo de ser o autor de sua própria vida e buscador de sua felicidade. Joga-se sobre os ombros das pessoas o fardo de ser feliz a qualquer custo, de um lado e, de outro, o estigma de ser culpado pela sua infelicidade e por não ser bem-sucedido.
Os sucessos pessoal e financeiro passam, assim, a estarem atrelados à felicidade ou a uma visão positiva do mundo. Os problemas e os sofrimentos são fatores que devem ser ignorados pelas pessoas, que devem-se forçar a sorrir (dizem haver pesquisas que mostram que um sorriso faz você de uma hora para outra ficar feliz!) até mesmo quando estão em situações muito penosas. Como no caso do diálogo inicial desta coluna, incute-se na mente do paciente que cabe a ele se curar do câncer, basta um pensamento positivo.
Sabe-se, porém, que enquanto muitos ganham dinheiro proferindo palestras e cursos de autoajuda, vendendo livros ensinando a ser feliz, o sofrimento e as dores do dia a dia continuam existindo para milhares de pessoas no mundo. Talvez mais do que toda essa positividade na forma de enxergar o mundo, o sofrimento que decorre da vida real de muitas pessoas tem o poder de formar pessoas mais conscientes do mundo ao seu redor e, consequentemente, pessoas menos propensas ao egoísmo social.
Um dos subprodutos dessa busca pela felicidade não resolvidos pela psicologia positiva é, justamente, a alienação provocada pela tentativa de se mostrar ou fingir estar feliz em todos os momentos da vida. A alienação está levando a um individualismo perverso de pessoas que vivem em suas bolhas sociais, sem considerar as dores e os sofrimentos das outras pessoas, simplesmente porque não querem trazer qualquer negatividade a sua esfera de contatos.
Qualquer um que demonstre estar sofrendo ou estar triste já é imediatamente julgado, determinando-se que ele/ela rapidamente tome um remédio antidepressivo ou vá para uma festa, para se divertir. Esse tipo de diversão dissimulada, regada a muitas substâncias químicas que tiram temporariamente o peso da realidade, faz com que as pessoas se esqueçam de quem são realmente, das suas dores e de seus defeitos, para viver uma vida de faz de conta inexistente. Essa negação da sua própria existência um dia volta e pede as contas, porque viver uma vida que não é sua acaba sendo insustentável no longo prazo.
Um reflexão crítica sobre ser ou não necessário ser feliz a todo tempo traz consigo o benefício de refletir sobre os problemas do mundo. Problemas, que frise-se, não vão sumir somente com um sorriso, uma festa ou um copinho de cerveja: há muitas guerras no mundo agora, milhares de pessoas estão abaixo da linha da pobreza no Brasil, o número de desempregados só aumenta no país. Esses por si só seriam motivos para refletir e se propor a atuar de alguma forma para a busca de soluções para um, que seja, desses problemas.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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