Na terça-feira passada (21), presenciei o testemunho de uma sobrevivente da Fazenda Guarani, considerado um campo de concentração indígena no Brasil. Foi para lá que, a partir de 1972, começaram a ser levados índios da etnia Krenak e, posteriormente, das etnias Guarani e Tupiniquim que ocupavam terras no Espírito Santo.
A Fazenda Guarani se tornaria um experimento da ditadura militar brasileira, onde se confinava a população indígena que ocupava terras que o governo pretendia destinar a projetos específicos. Assim é que a população indígena que ocupa hoje a região litorânea de Aracruz, aqui no estado, estava justamente no local onde se pretendia fazer uma grande plantação de eucaliptos (o que futuramente seria a Aracruz Celulose).
Foi por esse motivo que, como conta nossa testemunha viva, de um dia para outro seus familiares e outros grupos indígenas foram levados a crer pelas autoridades brasileiras que deveriam sair de suas terras em Aracruz e ir para uma terra que lhes seria doada, a Fazenda Guarani. A verdade é que o projeto da ditadura brasileira era de confinar a população indígena na Fazenda, da mesma forma que se fazia no Reformatório Krenak em Resplendor (MG).
Nossa testemunha conta que a polícia entrou em sua casa, a levou com a roupa do corpo para uma espécie de local de espera ou delegacia, e de lá no fim do dia foi levada em um ônibus para a Fazenda Guarani, que fica localizada próxima à Serra do Cipó em Minas Gerais. Ela nunca quis ir, foi levada mesmo à força, deixando tudo que tinha para trás em sua casa, seus bens pessoais até hoje não foram reavistos. Grávida, à época, teve seu filho na Fazenda, sem qualquer cuidado e amparo necessários, pois o que os povos indígenas descobriram quando chegaram lá era que se tratava de uma verdadeira prisão.
Vigiados pela polícia, não podiam sair, tinham que trabalhar forçadamente e muitos ficavam presos em buracos na terra, outros em selas solitárias. Mas tudo isso é pouco contado no Brasil, a historiografia brasileira ainda está começando a abrir essa realidade para o país e para o mundo. No Relatório Final da Comissão da Verdade do Brasil algumas linhas são dedicadas à Fazenda Guarani e os povos que lá foram confinados durante a ditadura.
Mas voltando a nossa testemunha, ainda viva ela se lembra como é terrível ter tido que deixar a sua casa, sem nenhum pertence pessoal, como se nada mais lhe pertencesse, nem o direito de ir e vir, nem tudo que lhe lembrasse as histórias de vida, as lutas e as conquistas. De uma hora para outra não se tem nada mais, nem uma mala de roupas para contar história.
A Fazenda Guarani por si só é um genocídio, um crime que não deve ser esquecido. A história específica dessa mulher indígena me fez lembrar a vida de tantas outras mulheres que andam pelo mundo sem nada, nada que lhes permita lembrar ou provar quem são, de onde vêm, as suas histórias.
As mulheres refugiadas vagueiam pelo mundo, fugindo de perseguições que não têm hora nem lugar. Há alguns anos ouvi o testemunho de uma mulher síria, que primeiramente fugiu da Guerra na Síria para um Campo de Refugiados na Jordânia e desse campo – onde não se podia sair livremente – fugiu deixando tudo para trás, submetendo-se a traficantes de pessoas, até chegar ao Brasil.
Ela também, assim como a testemunha indígena, tem a memória como única história, tem suas palavras cortadas por lágrimas como único testemunho de quem é, de onde veio e do que um dia viveu. O mais interessante é que as histórias dessas duas mulheres se repetem no dia a dia das mulheres capixabas vítimas de violência doméstica, pois são obrigadas a fugir de casa para não serem agredidas por companheiros, maridos e outros familiares.
São mulheres que fogem de uma situação de violência doméstica, tendo que sair de casa muitas vezes só com a roupa do corpo, sem documentos e sem qualquer amparo do Estado. Quando buscam ajuda nas delegacias de mulheres, muitas delas relatam serem mal atendidas numa infraestrutura onde nem sequer banheiros dignos existem.
As mulheres que fogem da violência doméstica deixam tudo para trás, suas casas, suas lembranças, suas histórias de vida. O Estado não está disposto a desenvolver programas para ajudá-las, restando a nós a indagação: será sempre a mulher que terá que fugir de casa, abandonar seus pertences, seu emprego, seu local de estudo, sua rede de amizade, para que não seja agredida ou morta?
Triste coincidência que se vê no Estado do Espírito Santo, mulheres vítimas de violência são invisibilizadas pelas políticas públicas, assim como as mulheres indígenas que foram levadas para a Fazenda Guarani, como as refugiadas que chegam aqui, sem nada, sem história, continuam sendo revitimizadas por uma sociedade patriarcal e misógina.