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Violência contra a mulher

Elize, Pamella e a misoginia estrutural que permeia a sociedade brasileira

Quantas mulheres existem por aí sofrendo agressões psicológicas, sendo chamadas de loucas por seus companheiros, sem receber ajuda nem de amigos, nem das autoridades brasileiras?

Publicado em 14 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

14 jul 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Violência
Lembrem-se: em briga de marido e mulher, é sim para meter a colher, denuncie! Crédito: Pixabay
O que a história de Elize Matsunaga, retratada em minissérie da Netflix, e o espancamento da mulher do DJ Ivis, filmado em vídeo pelas câmeras de segurança da residência do casal, têm em comum? Duas coisas saltam aos olhos em ambos os casos: a midiatização das duas situações de violência de gênero e a misoginia que permeia as narrativas nos dois casos.
A série "Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime" está entre os top 10 da Netflix nos Estados Unidos, de acordo com o site Observatório do Cinema, não sendo diferente aqui no Brasil, onde está em oitavo lugar no ranking dos mais assistidos no serviço de streaming. O poder da Netflix de conectar o mundo é enorme e o que mais chama atenção, no caso da minissérie sobre o crime de Elize, é que a maioria dos comentários dos espectadores aqui e no exterior é sobre a misoginia estrutural demonstrada durante a apuração e o julgamento do caso.
As pessoas ficam impressionadas, é certo, com o homicídio cometido, mas não deixam de notar a narrativa machista que permeia todo o inquérito policial e o julgamento de Elize. Isso fica claro quando a minissérie dá voz ao representante do Ministério Público responsável pela acusação no Tribunal do Júri, no momento em que ele mesmo indica que para se sair vencedor precisava abalar a imagem de Elize. Foi aí que a acusação resolveu lançar mão da estratégia de divulgar o fato de que Elize tinha sido garota de programa antes de se casar com a vítima, o que inevitavelmente levaria à conclusão de que ela teria assassinado o marido por dinheiro.
Como já antevia Milton Santos no livro "Por Uma Outra Globalização", mesmo estando distantes, a tecnologia acabaria nos aproximando como se estivéssemos numa vila, ao ponto que os fenômenos locais se repetiriam em vários lugares do mundo ao mesmo tempo. Digo isso porque uma assinante do serviço de streaming comentando sobre a série no exterior indaga quantos casos semelhantes a esse não teriam acontecido em outros lugares do mundo. Será mesmo?
Assistir à minissérie me fez refletir sobre uma afirmação feita por uma jornalista entrevistada, quando ela diz que ali naquele momento do julgamento de Elize, em 2014, a defesa da mulher vítima de violência de gênero ainda não era como hoje no Brasil, a vítima de violência doméstica era vista e retratada para a sociedade como uma pessoa que merecia sofrer violência por algo que teria feito em algum momento da sua vida. No caso de Elize, ela teria que suportar a violência psicológica feita pelo marido porque o conheceu quando fazia um programa com ele.
A violência praticada contra Pamella Gomes de Holanda pelo seu companheiro, o DJ Ivis, como analisa a colunista do site Uol Nina Lemos, rendeu a ele no Brasil de hoje (2021) vários novos seguidores. O DJ, quando fica sabendo da divulgação dos vídeos, vai até a sua conta numa rede social e acusa Pamella de desequilibrada, usando o velho artifício misógino de pôr a culpa em uma suposta doença psicológica da mulher pela agressão que ela sofre – agressão física cometida por ele mesmo, bom frisar.
Na minissérie "Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime", quando é dada voz à protagonista para narrar a sua própria história, ela relata uma série de agressões psicológicas do marido, que insistia em dizer que ela estava ficando louca. Há um relato marcante feito por um religioso que acompanhava o casal desde a celebração do casamento, que revela uma conversa entre ele e o marido de Elize sobre a necessidade de levá-la a um psiquiatra. Elize conta também que se sentia ameaçada por Marcos, o marido assassinado, pois ele teria ameaçado interná-la numa instituição psiquiátrica.
Nos dois casos temos o uso da narrativa que pretende intimidar a mulher com acusações sobre a sua sanidade psicológica. A narrativa da “mulher louca” é uma estratégia muito comum utilizada pelos agressores contra as suas vítimas, primeiro como violência psicológica que é, depois para justificar a agressão física, como fez o DJ Ivis.
Assim como disse a assinante da Netflix nos Estados Unidos depois de assistir à minissérie brasileira, eu me pergunto agora, depois de ouvir as desculpas esfarrapadas do DJ Ivis aos seus fãs, quantas Pamellas existem por aí sofrendo agressões psicológicas, sendo chamadas de loucas por seus companheiros, sem receber ajuda nem de amigos, nem das autoridades brasileiras? Lembrem-se: em briga de marido e mulher, é sim para meter a colher, denuncie!

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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