Para a cidade de Vitória, no mês de seu aniversário, uma adaptação de trechos de minha crônica "Para conhecer Vitória", publicada no livro "GUANANIRA".
Quem disse que todas as cidades são iguais não conhece Vitória. A persistente Vitória, que sobreviveu agarrada à pele de pedra do maciço central de uma ilha. A incrível Vitória, orlada de aterros, que lhe garantiram a expansão do exíguo pedaço de terra em que foi construída. A marulhosa Vitória, que dorme e acorda cercada de águas que sussurram, ao invés dos estrondosos ruídos das ondas, que se escutam em outras cidades do mundo situadas à beira do mar.
Para conhecer Vitória, é preciso ir além do burburinho, das vicissitudes e dos inevitáveis riscos que, hoje, afetam as cidades do mundo. É preciso escrutinar seus esconderijos. Subir e descer suas escadarias que são como cascatas de pedra escorrendo por todos os lados. Passar pela Praça Costa Pereira. Dar uma olhadinha para o belo teatro Carlos Gomes, que graças às deusas, ainda está lá. Andar pela avenida Beira-Mar e literalmente ficar a ver navios de todas as nacionalidades ancorados no porto.
Vaguear pelo Parque Moscoso, ver crianças que atiram migalhas aos patos e velhos senhores que jogam xadrez. Assistir ao pôr-do-sol rosa e alaranjado, de uma varanda junto ao Cais do Avião ou de um quiosque, na Curva da Jurema. Comer caranguejo no Triângulo das Bermudas. Experimentar moqueca de siri na Ilha das Caieiras. Sentar-se em uma calçada desses bares do Centro, pedir uma cerveja, uma caipirinha, uma casquinha, uma pescadinha, uma porção de coisa qualquer que dê para ir bebericando, mastigando, contando e ouvindo histórias sem fim.
Enfim, para conhecer Vitória, antes de tudo, é preciso saber sobre a mistura de geografia e de história de que ela foi feita. Quando a lenda diz que os indígenas a chamavam de Guananira, a Ilha do Mel. Quando se fez porto de abrigo a tantos navegantes. Quando Vasco Fernandes Coitinho, o velho donatário, descobriu que, mudando para a ilha, podia escapar de morrer sob flechadas.
Assim, apesar do respeitável desgosto de alguns que lamentam as violências e prepotências coloniais de ocupadores dos territórios da capitania do Espírito Santo, é impossível negar que Vitória nasceu como um lugar em que era possível garantir a existência de quem nele buscava refúgio.
Não seria maravilhoso a gente lembrar disso sempre? Afinal, é um consolo e uma honra pensar que, mesmo em tempos de fúria, dores, mortes, capturas indevidas e apropriações que marcaram o século XVI, no Brasil, nossa Capital foi também guardiã de tantas vidas e garantia de tantas sobrevivências ancestrais.