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Bernadette Lyra

A literatura em um mundo sem piedade, sem centro e sem coração

Posso estar enganada, porém creio que, mais que nunca, a condição de escrever literatura se profissionalizou

Publicado em 20 de Outubro de 2026 às 03:45

Públicado em 

20 out 2026 às 03:45
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra Bernadette Lyra

Escritores são a antena da raça, disse Ezra Pound. Falou especificamente de poetas, mas “cá como lá más fadas há”, então vou generalizar para quem faz da literatura seu “modo vivendis”. Nada melhor que ir até a escritura de cada pessoa para saber como a raça literária ideologiza.


A palavra ideologia não está aqui na perspectiva de Marx, que supõe a ilusão de que existe um ponto de vista externo sobre os feitos e o pensamento das criaturas ou de uma nação. Estou usando a ideologia no sentido da recuperação dos modos de materialização da cultura humana. 


A humanidade é um círculo vicioso e estamos todos nele acorrentados, mordendo a nossa própria cauda. Esclareço que esse é o pensamento de Beckett, bastante acertado nestes tempos confusos em que estamos vivendo.

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Há coisas no ar mais que pássaros, drones e aviões de carreira. O mundo encolheu. O espaço se modificou. Em um planeta sem fronteiras, a pessoa que orgulhosamente diz ter uma noção da própria consciência não consegue evitar a vala geral e acaba se tornando uma pobre máscara daquilo que fala. Em contrapartida, com a alta tecnologia de hoje, a cultura mundial está mais disponível que nunca, no sentido de experimentação e miscigenação. 


Se o tempo e o espaço se misturam e se mesclam, a arte oscila do passado ao futuro, da piada à paródia, da cultura intelectual à cultura vulgar e de imitação. A literatura, por sua vez, saltita alegremente entre todos e tudo. Tornou-se arroz de festa, a julgar pela imensa quantidade de gente que resolveu que escrever poemas, prosa etc. pode dar um bom caldo de prestígio ou “estar na moda”. 


Seria culpa da famigerada cultura woke, como querem alguns? Confesso que não sei. O certo é que o marketing tomou conta da praça. É dele a responsabilidade pelas tendências mercadológicas que cercam biografias, romances históricos, livros de autoajuda, escritos identitários e demais. 

Literatura  Divulgação

Há coisas no ar mais que pássaros, drones e aviões de carreira. O mundo encolheu. O espaço se modificou. Em um planeta sem fronteiras, a pessoa que orgulhosamente diz ter uma noção da própria consciência não consegue evitar a vala geral e acaba se tornando uma pobre máscara daquilo que fala. Em contrapartida, com a alta tecnologia de hoje, a cultura mundial está mais disponível que nunca, no sentido de experimentação e miscigenação. 


Se o tempo e o espaço se misturam e se mesclam, a arte oscila do passado ao futuro, da piada à paródia, da cultura intelectual à cultura vulgar e de imitação. A literatura, por sua vez, saltita alegremente entre todos e tudo. Tornou-se arroz de festa, a julgar pela imensa quantidade de gente que resolveu que escrever poemas, prosa etc. pode dar um bom caldo de prestígio ou “estar na moda”. 


Seria culpa da famigerada cultura woke, como querem alguns? Confesso que não sei. O certo é que o marketing tomou conta da praça. É dele a responsabilidade pelas tendências mercadológicas que cercam biografias, romances históricos, livros de autoajuda, escritos identitários e demais. 


No Brasil, vive-se um mimetismo dessa situação, que é internacional e aqui se dá em escala menor, dadas nossas condições econômicas precárias em termos de leitura e de compra de livros. 


O bom é que a escritura de agora é livre para efetuar a perversão da mistura de códigos, da codificação intertextualizada, do uso em segundo grau para os gêneros literários canônicos. Era preciso liquidar o ranço dos velhos resíduos populistas, deixar de ser agonista ou apenas protagonista amador da produção literária. 


Posso estar enganada, porém creio que, mais que nunca, a condição de escrever literatura se profissionalizou. Como se faz necessário para sobreviver em um mundo sem piedade, sem centro e sem coração.


Bernadette Lyra

Bernadette Lyra Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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