Conceição da Barra, essa cidadezinha à beira-mar onde nasci e que carrego no coração para sempre como uma cicatriz deleitosa, hoje, dia 6 de outubro, faz anos. Por isso, escrevo para dizer “parabéns”, enquanto me lembro de cada detalhe dela, de cada amoroso detalhe que nela me rodeava, da infância à juventude.
É tudo tão bonito nesse pedaço de terra entre as águas que chega a dar sufoco. Descobri que, mesmo distante, queria estar lá, onde as pontas de minha vida, tão andarilha, estão amarradas.
Queria estar exatamente do lado do sul da cidade, no ponto em que a fita azul do rio Cricaré se junta ao mar verde, criando a impressão de que a partir dali se estende um horizonte marinho sem fim. Isso vale para quem se põe à beirada o cais que cerca o antigo casarão do Trapiche e olha na direção do pontal.
Como não lembrar que era onde estava a Bugia com seu colar de coqueiros, redes de pesca e canoas, e que por ali passavam os navios que vinham até o cais? Ou será que eu queria estar naquela imensidão que fica do lado norte, na foz verdadeira do rio Itaúnas?
Não tem como esquecer aquela corrente de água cor de caramelo, tingida pelo tanino das folhas do mangue, a entrar pela espuma branca das ondas, depois de atravessar uma estranha paisagem de raízes expostas, flores estranhas, liames e cipós, nesse lugar, que desde sempre se chamou Guaxindiba, nome tirado de uma trepadeira malvácea que ali existia, e que era como um deserto salgado, cheio de salsa da praia, coco de guriri e mistério.
Seja como for, tenho a certeza de que o pertencimento de minha existência se faz no território da cidade que fica entre esses dois rios. O primeiro foi chamado pelos tupinambás de Kari Karê, que quer dizer o Preguiçoso, porque desce de uma serra com nome de pedra preciosa, Safira, e vem se arrastando mole e docemente, fazendo curvas lentas até desaguar no oceano.
O segundo foi denominado Itaúnas, em língua tupinambá, porque guarda pedras negras no fundo do leito, enquanto corre encravado entre barrancos e imensas dunas que já engoliram uma vila inteirinha.
Ambos são percursos de água doce que delimitam o território urbano de minha cidade natal. E sendo assim também marcam os limites aquáticos do afeto em minha memória.
Agradeço aos deuses por me deixarem nascer entre esses dois rios, em minha Conceição da Barra, uma terra geometricamente plana, sem montes ou montanhas, à beira do mar, diretamente conectada com o céu de límpidas estrelas do norte capixaba.