Houve uma vez um passado em que as práticas das pessoas ditas “bem-educadas” incluíam as chamadas “belas artes”. Crianças e jovens aprendiam a batucar o “Bife” ao piano e alguns até chegavam a tocar “Pour Elise”, nos saraus da família. Aquarelas ingênuas, debruadas de cravos e rosas, eram pintadas por moças e senhoras para ornamentar as paredes de ambientes caseiros. Versos comemorativos, escritos por poetas amadores, não faltavam nas festividades.
Vocês vão dizer que isso ainda existe. Sim. Mas, nos dias de hoje, destacar-se em um circuito social doméstico ou restrito já não é o bastante. Em plena era virtual, repleta de facilidades tecnológicas para exibição das individualidades pessoais, ficou bem mais acessível o sonho de tantas pessoas de ganhar visibilidade em meio à multidão.
Uma prova é o desmesurado fazer literário que invade o país. Basta acompanhar a imensa quantidade de livros atualmente publicados e a nuvem de editoras que a cada dia brotam como cogumelos na chuva, para constatar que a literatura é a bola da vez. É natural. E é natural que, em tais circunstâncias, todo mundo queira ser escritor, como cronista, contista, romancista ou poeta.
Grande parte dessa ânsia de ganhar notoriedade pela literatura talvez esteja no Romantismo, quando a escrita foi elevada à categoria de uma profissão de destaque no ambiente social. No final do século XVII, a humanidade descobriu a ciência em toda sua glória. E a ciência destronou as certezas religiosas que governavam até então os sentidos dos fatos e das coisas do mundo. Os seres humanos passaram a ter consciência de suas individualidades e da noção de coletividade, necessárias à criação pela arte.
A partir do século XVIII, escritores (e mais raramente escritoras) são considerados profissionais, conquistam leitores e são aclamados pela habilidade pessoal de criar personagens e cenas capazes de produzir sentimentos de identificação. Logo passam a ter status de celebridades. Segundo a jornalista polonesa Teresa Walas, em “Correio Literário”: “o Romantismo conferiu à escrita um alto posto na hierarquia social, principalmente aos poetas”.
Talvez seja essa herança romântica que, em plena era de pós-pós-modernidade e das facilidades tecnológicas de produções midiáticas, resulta no acúmulo de escritos e das circunstâncias que o cercam. Como nem toda gente pode recorrer aos programas de televisão, que garantem aos que neles aparecem pelo menos aqueles 15 minutos de fama de que fala Andy Wharol, nada mais confortador ao ego de que ter o nome estampado numa publicação.