As tretas e o disse-me-disse entre estrelas cinematográficas mais revelam de que autenticam as tramoias que cercam a entrega do Oscar. Fatos e boatos ocupam a mídia. E nosso orgulho nacional ora se deleita ora se indigna com as notícias sobre louvações e detrações acerca de “Ainda estou aqui”, filme brasileiro, concorrente em três categorias: melhor filme; melhor filme internacional e melhor atriz.
Para além da certeza de que tudo não passa de encenação necessária à batalha publicitária nessa competição anual em que Hollywood expõe as afiadas garras capitalistas, a gente vivencia momentos de tremulação e torce apaixonadamente, com todas as forças, por nosso candidato, regido pelo diretor Walter Salles.
Sobretudo porque nele atua a divina Fernanda Torres, que tem sangue capixaba, por parte de pai. Mas a paixão escurece a razão. Vocês sabem bem disso. E não vão estranhar que eu diga que, por conta de nossa paixão patriota, muitos outros filmes estão sendo deixados na zona de sombra. Por exemplo: “A garota da agulha”, indicado para melhor filme internacional.
“A garota da agulha” é uma facada no coração. Não é sobre personagens ou fatos heroicos que comovam a gente. É sobre a matança sucessiva de bebês, feita por Dagmar, uma assassina dissimulada em uma “fada madrinha” às avessas, que mentia ao dizer encaminhar os recém-nascidos a lares caridosos, para ajudar as garotas que engravidavam de modo clandestino e depois não tinham como sustentar os bruguelos.
Segundo o crítico Caio Coleti, do site de cinema ‘Omelete’, o filme “adiciona algo de novo, subversivo e vitalmente contemporâneo a um texto enraizado no inconsciente coletivo”. A história é real, aconteceu em Copenhague, e serviu para mudar as leis dinamarquesas. Tratada com esmero pelo diretor Magnus von Horn, desvela toda a impiedade para com as mulheres na pós-primeira guerra mundial. Faz isso através da garota do título, Karoline, uma costureira desempregada, grávida do ex-patrão e abandonada, que oscila desesperadamente entre momentos de descontração e de horror, em busca de um modo digno de levar a vida.
Tal como a trilha sonora fragmentada e sombria que acompanha as imagens, a beleza cruel da fotografia expressionista em preto e branco de alto contraste, de Michal Dymek, é de deslumbrar. Duvido que fotógrafos de profissão não endossem essa minha opinião. Quanto a mim, não posso deixar de dizer o quanto “A garota da agulha” me deixou siderada. E convencida de que seria justo o filme levar o “moço nu dourado” para a Dinamarca. Na categoria internacional. A única para a qual o filme está indicado.